
{"id":377,"date":"2013-09-20T19:01:53","date_gmt":"2013-09-20T19:01:53","guid":{"rendered":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/?p=377"},"modified":"2015-09-12T19:05:18","modified_gmt":"2015-09-12T19:05:18","slug":"sons-do-harlem-por-rafael-ferraz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/?p=377","title":{"rendered":"Sons do Harlem (por Rafael Ferraz)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4215\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/image2.jpg\" alt=\"image\" width=\"686\" height=\"312\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O Guitarrista Andr\u00e9 Martins conta tudo sobre o seu novo trabalho solo intitulado &#8220;Harlem&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como nasceu o\u00a0Harlem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; O\u00a0Harlem\u00a0nasce\u00a0em 2010 na casa do Paulo Assis. Eu\u00a0j\u00e1 tinha umas ideais musicais,\u00a0mas n\u00e3o tinha nenhuma composi\u00e7\u00e3o, e eu falei com ele mais ou menos na metade de 2010,\u00a0ele surgiu com a vontade dele de montar o est\u00fadio, e\u00a0eu queria chamar o Paulo pra gravar, n\u00e3o sabia onde gravar, mas queria que fosse o Paulo Assis que gravasse. A\u00ed ele topou e falou \u201cse voc\u00ea esperar um pouco eu vou montar o est\u00fadio, e a gente faz o primeiro trabalho l\u00e1\u201d, e a\u00ed casou o nascimento do est\u00fadio com o terceiro disco. Em 2010 eu j\u00e1 tinha umas ideias, eu j\u00e1 queria fazer o terceiro disco, e queria compor\u00a0de forma\u00a0diferente por que o\u00a0Argila\u00a0demorou muito, e tinham musicas novas e antigas sendo misturadas, e o\u00a0Infinito\u00a0foi muito r\u00e1pido, ganhamos um pr\u00eamio, em dois meses a gente comp\u00f4s todas as faixas, e mais dois ou tr\u00eas meses a gente gravou, mixou e lan\u00e7ou. O\u00a0Harlem\u00a0eu queria que fosse um\u00a0processo, ent\u00e3o eu falei \u201cEu quero come\u00e7ar a fazer o disco,\u00a0v\u00e2mo\u00a0fazer junto Paulo?\u201d, por que eu queria que ele participasse\u00a0dessa concep\u00e7\u00e3o sonora. Eu n\u00e3o queria come\u00e7ar a compor, gravar fita em casa, gravar demo no computador,\u00a0por que a\u00ed a coisa j\u00e1 vai tomando uma forma mais ou menos, perde um pouco a espontaneidade da cria\u00e7\u00e3o. E foi o que aconteceu. A gente come\u00e7ou a gravar o\u00a0Harlem\u00a0mesmo em 2011. Foi da metade de 2011 a metade de 2013, entre grava\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o. E eu n\u00e3o fiz muita coisa em termos de composi\u00e7\u00e3o,\u00a0fui buscando s\u00f3 melodias, algumas coisas, mas eu me forcei a n\u00e3o compor no sentido de terminar a musica muito arranjada j\u00e1 pra chegar no est\u00fadio.\u00a0Foi um processo bem \u201cdentro do est\u00fadio\u201d com as ideias. A\u00ed\u00a0\u00e9\u00a0\u00f3bvio, conforme a gente foi trabalhando m\u00fasica por m\u00fasica, eu ia compondo, finalizando, arranjando, ensaiando com o Rui e o Bruno, e mostrando as musicas pro Paulo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reparei que seus 3 discos possuem nomes curtos. Tem o\u00a0Infinito, Argila\u00a0e agora o\u00a0Harlem.\u00a0\u00c9 coincid\u00eancia ou gosto pessoal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Eu gosto de nomes singulares, . Originalmente o Harlem\u00a0era \u201cSongs\u00a0From\u00a0The\u00a0Harlem\u201d, depois a gravadora levantou uma quest\u00e3o importante, por que n\u00e3o faria muito sentido lan\u00e7ar um disco no Brasil com esse nome, ent\u00e3o eu sugeri \u00a0\u201c Can\u00e7\u00f5es do\u00a0Harlem \u201d, mas a\u00ed l\u00e1 fora ia ficar super\u00a0estranho, e no fim todo mundo ia chamar de\u00a0Harlem. Enfim,\u00a0o\u00a0t\u00edtulo original era\u00a0\u201cSongs\u00a0From\u00a0The\u00a0Harlem\u201d, virou\u00a0\u201cCan\u00e7\u00f5es do\u00a0Harlem\u201d e a\u00a0gente optou por deixar\u00a0Harlem\u00a0apenas. Mas eu gosto disso. Gosto de letras em caixas baixas tamb\u00e9m (risos). Eu acho que d\u00e1 uma unidade pro trabalho. E gosto de nomes que sejam nomes pr\u00f3prios. Acho que Argila chama Argila em qualquer lugar que for.\u00a0Harlem. Infinito, apesar de ser um nome em portugu\u00eas, \u00e9 um nome. Como se fosse um selo. Esse nome funciona em qualquer lugar do mundo. Acho bacana quando a obra tem um nome.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As suas m\u00fasicas\u00a0tamb\u00e9m ganham nomes muito peculiares.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; As m\u00fasicas, elas s\u00e3o todas composi\u00e7\u00f5es que nascem sob uma perspectiva de cria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. E \u00e0s vezes voc\u00ea doa essa musica ou se inspira. E isso vem desde que eu comecei a compor musica instrumental. No primeiro disco, a gente abre com\u00a0uma musica chamada \u201cVer\u00edssimo\u201d, que \u00e9 uma homenagem minha ao \u00c9rico Ver\u00edssimo. E eu gosto de nomear as musicas\u00a0com o nome dos homenageados. Eu fiz uma musica no\u00a0Argila\u00a0chamada\u00a0\u201cPra Heitor\u201d, que \u00e9 o Heitor TP. No\u00a0Harlem\u00a0acontece isso na\u00a0\u201cFrisell\u201d. \u00c9\u00a0uma musica totalmente inspirada no Bill\u00a0Frisell,\u00a0que eu acho que \u00e9 um cara da contemporaneidade muito interessante.\u00a0\u201cPaul Auster\u201d\u00a0\u00e9 um nome totalmente pr\u00f3prio, \u00e9\u00a0o meu escritor\u00a0norte americano\u00a0predileto hoje, e a gente t\u00e1 tentando fazer o disco chegar at\u00e9 ele. Deve ser interessante um escritor ver que algu\u00e9m fez\u00a0uma musica pra ele. \u201cRothko\u201d \u00e9 do pintor Mark\u00a0Rothko. O\u00a0Rothko\u00a0\u00e9 aquele cara das cores. As formas quadradas em\u00a0quadros muito grandes, e com cores. Se voc\u00ea escutar\u00a0\u201cRothko\u201d, vai ver que as pinceladas sonoras s\u00e3o gigantescas, na minha concep\u00e7\u00e3o,\u00a0e\u00a0elas v\u00e3o pra v\u00e1rios caminhos. Ent\u00e3o as musicas \u00e0s vezes nascem e a\u00ed eu batizo. E as\u00a0vezes \u00e9 um caminho contr\u00e1rio. Eu falei:\u00a0\u201cEu quero fazer uma musica pro Paul Auster\u201d. Ent\u00e3o eu reli o melhor romance\u00a0dele, eu tenho quase todos os livros, e tive aquela inspira\u00e7\u00e3o meio nova-iorquina sinistra, meio escurid\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 uma m\u00fasica\u00a0em tom\u00a0menor. \u00c9 uma m\u00fasica que tem um pingo de suspense. A\u00ed ela j\u00e1 nasce nessa perspectiva. Agora os nomes, por exemplo,\u00a0\u201cUa:Brari\u201d do\u00a0Argila, \u00e9 um nome inspirado em um livro do Marcelo Rubens Paiva, que acontecia na Amaz\u00f4nia. Voc\u00ea quando faz uma musica instrumental, \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea nome\u00e1-la. Pode chamar \u201cPorta\u201d\u00a0ou\u00a0\u201cJanela\u201d. O nome das minhas musicas s\u00e3o\u00a0como se fossem\u00a0mais um sentimento mesmo. E eu acho interessante\u00a0pro ouvinte ter essa coisa de \u201cMeu, s\u00e3o nomes diferentes\u201d. S\u00e3o nomes que n\u00e3o exatamente querem dizer alguma coisa sozinhos. \u00a0Ent\u00e3o acho que existe um pouquinho de pensamento induzido a\u00ed no ouvinte tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/capa_harlem1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4223 alignleft\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/capa_harlem1.jpg\" alt=\"capa_harlem\" width=\"250\" height=\"250\" \/><\/a>Uma coisa constante \u00e9 exatamente essa coisa de homenagear artistas nas musicas. Escritores, m\u00fasicos e at\u00e9 pintores. Hoje, quem seriam esses homenageados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Eu tenho um projeto. Eu j\u00e1 sei como vai ser o meu quarto e\u00a0o\u00a0quinto\u00a0disco (risos). Isso n\u00e3o \u00e9 ansiedade, \u00e9 um planejamento. Meu quarto disco vai ser o resultado de um mestrado que eu estou fazendo hoje na ECA, que \u00e9 um trabalho\u00a0de livre improvisa\u00e7\u00e3o e eletroac\u00fastica, ent\u00e3o com certeza vai ser um disco muito diferente de m\u00fasica contempor\u00e2nea instrumental, sob a perspectiva da guitarra.\u00a0E o quinto disco, eu posso at\u00e9 dar o nome dele, ser\u00e1 \u201cSaramago\u201d, que pra mim \u00e9 o maior escritor de todos os tempos da l\u00edngua portuguesa, e na minha opini\u00e3o, talvez\u00a0o maior escritor de todos os tempos. Mas\u00a0\u00e9 dif\u00edcil por que \u00e9 d\u00e1 l\u00edngua portuguesa, e apesar das tradu\u00e7\u00f5es, para o p\u00fablico de fora ele n\u00e3o tem o mesmo peso. Nesse trabalho, pois nem sei se vai existir disco ainda, como a gente v\u00ea as coisas v\u00e3o mudando,\u00a0quando\u00a0a gente fala em disco hoje a gente diz \u201ca obra\u201d. Se ela vai ter formato A, B ou C. Eu vou fazer um disco inspirado na obra do Saramago, que eu acho que \u00e9 inacredit\u00e1vel de diversa. Eu diria que o escritor pra mim hoje\u00a0seria o Saramago, que \u00e9 uma pessoa que eu v\u00e1rias vezes quis fazer uma musica, mas sempre achei que uma musica\u00a0s\u00f3 pro Saramago n\u00e3o d\u00e1, ent\u00e3o\u00a0vou fazer um trabalho pro Saramago,\u00a0acho ele incr\u00edvel. Quanto a m\u00fasicos, eu tenho escutado muita m\u00fasica moderna, eu quase n\u00e3o escuto m\u00fasica feita com guitarra. Eu tenho sempre meus eternos prediletos no instrumento, que s\u00e3o minhas refer\u00eancias: Hendrix, Jeff Beck,Frisell. Gosto muito do\u00a0Scofield,\u00a0Sylvain\u00a0Luc, Jo\u00e3o Castilho,\u00a0Romero\u00a0Lubambo. Esses caras s\u00e3o,\u00a0pra mim, pilares que jamais v\u00e3o deixar de coexistir comigo. Mas eu tenho escutado muita musica sinf\u00f4nica, muita musica feita no s\u00e9culo XX, nem passa perto de guitarra. At\u00e9 por que eu acho\u00a0que o formato da m\u00fasica guitarr\u00edstica,\u00a0e eu tamb\u00e9m contribuo com isso, por que eu sou professor de guitarra, sou guitarrista, e meu disco tamb\u00e9m traz a guitarra como instrumento principal, mas eu acho que chega um momento que voc\u00ea n\u00e3o tem muito mais o que fazer.\u00a0Isso esbarra desde a concep\u00e7\u00e3o tonal,\u00a0tudo j\u00e1 foi feito na concep\u00e7\u00e3o tonal. Eu tentei trazer em\u00a0Harlem\u00a0a guitarra como uma voz. Quase todas as melodias do disco\u00a0s\u00e3o \u201cassovi\u00e1veis\u201d, isso eu acho que \u00e9 um m\u00e9rito, pra tentar sair um pouco da \u201cdoidera\u201d. Tentei fazer um disco bem pouco t\u00e9cnico no sentido \u201cescalar\u201d, \u201carpejado\u201d, por que eu acho que isso realmente n\u00e3o leva a lugar nenhum,\u00a0hoje em 2013, no sentido de proposi\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Eu n\u00e3o estou julgando o trabalho de ningu\u00e9m, e n\u00e3o estou falando que t\u00e9cnica \u00e9 ou n\u00e3o importante. T\u00e9cnica \u00e9 muito importante. Eu sempre falo: T\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 tocar r\u00e1pido. Tamb\u00e9m \u00e9 tocar r\u00e1pido, e com precis\u00e3o, mas t\u00e9cnica tamb\u00e9m \u00e9 fazer um acorde perfeito, um vibrato, o\u00a0bend. T\u00e9cnica \u00e9 voc\u00ea conhecer o bra\u00e7o do instrumento a ponto de voc\u00ea domina-lo como se domina uma linguagem.\u00a0A interface que voc\u00ea escolheu naquele momento \u00e9 o bra\u00e7o. Ent\u00e3o, fica atestado que eu n\u00e3o estou falando contra a t\u00e9cnica, pelo contrario. Mas eu acho que artisticamente gravar um\u00a0disco,\u00a0seja um disco de rock, ou de jazz\u2026eu fiquei pensando: \u201cP\u00f4, vou gravar um disco de jazz,\u00a0legal, mas\u2026meu Deus, o que\u00a0n\u00e3o foi feito j\u00e1?\u201d. O disco leva um trabalho t\u00e3o grande pra ser feito, \u00e9 um filho, ele fica pra sempre. Ent\u00e3o, pra que eu vou propor fazer alguma coisa que vai soar como j\u00e1 soou tantas e tantas vezes?.\u00a0E eu n\u00e3o sou de nova Iorque pra gravar um disco de jazz com aquela perspectiva do cara de l\u00e1, eu sou brasileiro, mas ao mesmo tempo eu n\u00e3o nasci no Rio de Janeiro, que tem aquela cosia de samba e bossa nova. Eu sou de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo \u00e9 essa confus\u00e3o, essa zona de som. Voc\u00ea anda na rua, \u00e9 serra, bate\u00a0estaca, o cara do radio, Rock \u2018n\u2019Roll, Jazz. Eu\u00a0acho que eu misturo as influ\u00eancias naturais pra mim. Ent\u00e3o se fosse pra citar um m\u00fasico hoje, eu diria que me impressiona muito o trabalho do\u00a0Stockhausen, e o Pierre Boulez, que s\u00e3o os dois compositores do s\u00e9culo XX que me impressionam demais. E eu posso dizer um terceiro nome que talvez seja o mais\u00a0importante desses que eu falei que \u00e9 o\u00a0John Cage, que me impressionou muito, tem coisas maravilhosas. E\u00a0outro de musica sinf\u00f4nica que eu escuto bastante \u00e9 um cara j\u00e1 falecido, um italiano\u00a0chamado Luciano\u00a0Berio, pois\u00a0\u00e9 maravilhoso o trabalho dele. Mas isso s\u00e3o coisas que eu estou escutando agora, de uns anos pra\u00a0c\u00e1. Venho aprendendo nisso. Acho que os meus pilares ficaram\u00a0nos mesmos. Eu continuo gostando de Miles, Keith\u00a0Jarret, continuo gostando desses caras, mas eu n\u00e3o tenho algu\u00e9m novo assim no instrumento, e eu acho que \u00e9 dif\u00edcil aparecer algu\u00e9m. Eu acho que a\u00a0minha fase de me impressionar no\u00a0instrumento assim j\u00e1 passou,\u00a0talvez.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por que a escolha desse nome,\u00a0Harlem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211;\u00a0Harlem\u00a0\u00e9 o bairro negro de Nova Iorque. A ideia era fazer um disco que fosse \u201ccantado\u201d, inspirado naquelas melodias da origem da musica negra norte americana, que d\u00e1 origem a praticamente grande parte da musica ocidental. Essa origem do final do s\u00e9culo XIX pro come\u00e7o do s\u00e9culo XX do Estados Unidos, ela da origem ao Blues, ao R&amp;B, a Soul Music, o Blues vira Rock na cidade, vira\u00a0Rock\u2019a\u2019Billy, vai virar Country no interior, do Blues vem o Jazz, do Jazz e Rock vem o\u00a0Fusion, quer dizer, tirando talvez a musica latina, cubana, e a musica brasileira, a gente tem na parte ocidental da\u00a0coisa uma influ\u00eancia muito forte. A guitarra \u00e9 um instrumento totalmente nascido nesse ambiente. A primeira grava\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1948 se eu n\u00e3o me engano, em Chicago, que \u00e9 a primeira grava\u00e7\u00e3o de guitarra el\u00e9trica da hist\u00f3ria com o\u00a0Muddy\u00a0Waters. Ent\u00e3o voc\u00ea tem um instrumento el\u00e9trico que vem dessa origem negra. Mas eu n\u00e3o queria fazer um disco de blues, de novo aquela coisa, \u201cgravar um disco de blues\u201d, legal,\u00a0mas eu n\u00e3o sou\u00a0\u201cblueseiro\u201d, se essa fosse a minha praia\u00a0seria \u00f3timo, mas n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o soa autentico pra mim eu gravar um disco inteiro de blues. Mas eu queria ter essa concep\u00e7\u00e3o da melodia daqueles c\u00e2nticos gospel. Por que as coisas foram mudando ao longo do tempo\u00a0no s\u00e9culo XX, e principalmente agora no s\u00e9culo XXI, ent\u00e3o quando a gente fala gospel, ou quando fala em c\u00e2ntico que vem dessa origem, j\u00e1 soa totalmente diferente. Mas \u00e9 muito forte a tradi\u00e7\u00e3o l\u00edrica que existe nessa musica negra, e que d\u00e1 origem nessa diversidade toda. Ent\u00e3o eu quis fazer um disco inspirado nessa coisa do cantar. Mas a\u00ed eu\u00a0n\u00e3o\u00a0canto\u00a0com a voz, eu canto com a guitarra.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Realmente n\u00e3o d\u00e1 pra definir o\u00a0Harlem\u00a0com nenhum estilo ou ritmo espec\u00edfico. Tem uma varia\u00e7\u00e3o de estilos bem diversa.\u00a0E suas musicas passam uma sensa\u00e7\u00e3o de trilha sonora as vezes.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Sim, e \u00e9 natural isso. As melodias nascem primeiro.\u00a0A \u201cFolie\u201d\u00a0j\u00e1 nasceu aquela coisa meio\u00a0brazuca, a\u00ed\u00a0veio a quest\u00e3o da orquestra\u00e7\u00e3o, mas ela erabrazuca\u00a0desde o inicio. A\u00a0\u201cHarlem\u201d\u00a0meio\u00a0bluesy, por isso que \u00e9 a faixa titulo, mas tamb\u00e9m tem\u00a0um pouco da coisa brasileira. Uma\u00a0instrumenta\u00e7\u00e3o mais brasileira,\u00a0menos americana. Mas eu forcei a\u00a0\u201conda\u201d\u00a0pois eu n\u00e3o queria gravar um disco de samba, eu queria que esse disco fosse mais cosmopolita mesmo. E a coisa do visual, que j\u00e1 vem\u00a0tamb\u00e9m desde o\u00a0Argila, e talvez eu tenha tentado fazer isso com o\u00a0Infinito, mas at\u00e9 por condi\u00e7\u00f5es da rapidez das grava\u00e7\u00f5es, no fim a gente n\u00e3o conseguiu desenvolver isso. Eu acho que a minha musica tem esse apelo cinematogr\u00e1fico no sentido de que a ideia \u00e9 que ela leve o ouvinte pra algum lugar. Quando\u00a0a gente fala de\u00a0clima em musica,\u00a0a gente est\u00e1\u00a0falando de percep\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o muito facilmente transfiguradas para o visual. Por exemplo, a\u00a0\u201cPaul Auster\u201d pra mim tem aquela coisa de Nova Iorque, uma n\u00e9voa, um clima da\u00a0d\u00e9cada de cinquenta meio\u00a0noir, meio densa\u00a0dos filmes. Isso \u00e9 at\u00e9 antigo, nem existe mais, voc\u00ea vai pra l\u00e1 hoje \u00e9 uma zona, todo mundo buzinando, falando no celular.\u00a0Na \u201cArpoador\u201d\u00a0eu acho que \u00e9 aquele entardecer, tem toda aquela representa\u00e7\u00e3o de estar no Rio de Janeiro, de frente pro mar.\u00a0\u201cFolie\u201d\u00a0quer dizer folia em franc\u00eas, mas folie \u00e9 no sentido de bagun\u00e7a mesmo. E a \u201cFolie\u201d\u00a0propositalmente tem essa sensa\u00e7\u00e3o de como se chegasse um monte de crian\u00e7a numa casa e fossem destruindo tudo, aquela coisa toda. Propositalmente ela tem\u00a0esse desarranjo. O\u00a0Bruno queria grava com bateria e eu disse que queria uma percuss\u00e3o. Da\u00ed ele sugeriu a Tabla. Propositalmente a gente foi buscar outro caminho, meio confuso, no sentido dessa coisa da folia. Eu acho que as musicas, elas passam uma imagem, sempre. Eu escuto musica instrumental por imagem. Gosto de escutar musica de olhos fechados. Pra mim \u00e9 sempre em imagens.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp14a.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-4218 alignright\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp14a.jpg\" alt=\"EntrevistaGtrExp14a\" width=\"480\" height=\"333\" \/><\/a>M\u00fasicas como a \u201cFrisell\u201d e \u201cBeck-O-La\u201d possuem uma sonoridade pop muito bacana, s\u00e3o como voc\u00ea disse, assovi\u00e1veis. Em seus discos sempre tem essas musicas com esse apelo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Sempre tive isso, vai mudar no pr\u00f3ximo disco, vai ser bem diferente, eu quero apostar num outro formato. Eu fecho um\u00a0ciclo interessante com o\u00a0Harlem. Agora no caso espec\u00edfico da \u201cFrisell\u201d, eu sempre gostei disso, e quando\u00a0escutei o\u00a0Frisell, eu pensei \u201ccaraca, olha o cara a\u00ed\u201d. A gente sempre acha que t\u00e1chegando na frente, e sempre tem algu\u00e9m que t\u00e1 na\u00a0sua frente. Obviamenteele tem uma concep\u00e7\u00e3o inacredit\u00e1vel. A\u00ed\u00a0eu fiz a musica, ate no formato\u00a0da cadencia, inspirado muito no disco\u00a0Nashville,\u00a0que\u00a0eu escutei muito quando estava no LAMA. Foi o primeiro disco que escutei do\u00a0Frisell. Me impressionou bastante a simplicidade dele. Por que entortar por entortar me enche muito o saco. Eu fico muito sem tes\u00e3o logo, de botar acordes com clusters, e tal, mas a\u00ed\u00a0tem um momento que perde aquela coisa,\u00a0pois parece que o cara come\u00e7a a fazer aquilo pra mostrar o qu\u00e3o complexo o\u00a0voicing\u00a0\u00e9. Pra mim deixa de ser musica, e passa a ser um puta estudo de harmonia, por exemplo, que \u00e9\u00a0animalmas ai j\u00e1 n\u00e3o \u00e9\u00a0musica, n\u00e3o \u00e9\u00a0obra.\u00a0Pra mim, eu fiz uma obra, como um quadro, um livro. Se eu vou fazer um estudo de\u00a0\u201cAll\u00a0The\u00a0Things\u00a0You\u00a0Are\u201d,\u201cStella\u201d, ou um estudo de invers\u00e3o de acordes, de cluster, \u00e9 um estudo. E eu n\u00e3o quero que um estudo vire musica, no sentido\u00a0da minha concep\u00e7\u00e3o de arte. Ent\u00e3o eu tento fazer coisas em que a melodia nasce primeiro, e eu vou rodear elas. E muitas vezes, ciclos harm\u00f4nicos\u00a0podem ser muito mais simples do que necessitariam ser.\u00a0Eu acho que isso s\u00f3 funciona, de ficar \u201cemperequetando\u201d, pra quem \u00e9 musico, e eu n\u00e3o quero fazer musica pra musico. Ent\u00e3o eu n\u00e3o vejo necessidade de ficar enchendo de\u00a0\u201ccacho de uva\u201d\u00a0pra quem\u00a0n\u00e3o e musico. Eu estou\u00a0fazendo musica. E eu acho muito legal a coisa que o\u00a0Frisell\u00a0tem, que a musica dele tem, que \u00e9 essa coisa do clima. E voc\u00ea v\u00ea\u00a0que varias vezes eu dou\u00a0dicas de que vai o clima pra c\u00e1, e de repente muda, maior\u00a0ou menor, tons hom\u00f4nimos. Na \u201cArpoador\u201d\u00a0tem tamb\u00e9m a quest\u00e3o c\u00edclica, que vai mudando de tonalidade. Eu uso algumas ferramentas, alguns ganchos tradicionais de composi\u00e7\u00e3o, orquestrais mesmo, mas traduzindo pra coisa do \u201cfeeling\u201d\u00a0de levar o ouvinte pra uma sensa\u00e7\u00e3o. De novo a gente cai\u00a0na quest\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o. Mas eu acho que fazer uma estrutura complexa\u00a0per se\u00a0n\u00e3o me diz nada. Vira um estudo. A\u00ed a gente volta na quest\u00e3o do que \u00e9 arte hoje. Muita gente faz coisas\u00a0achando que \u00e9 arte, e sei l\u00e1, \u00e0s vezes t\u00e1 faltando estofo, como diz o Regis, falta\u00a0estofo \u00e0s\u00a0vezes\u00a0pra voc\u00ea propor aquilo como arte.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na \u201cFrisell\u201d tem \u00f3timos sons de viol\u00f5es. Como foram gravados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; A\u00ed entra muito o Paulo Assis na concep\u00e7\u00e3o. A gente sempre se preocupou com o som, e n\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o. Os meus discos antigos foram gravados no formato tradicional, que foi muito legal, um aprendizado\u00a0enorme. No\u00a0Harlem\u00a0a gente se preocupou com o som. Ent\u00e3o tem desde capta\u00e7\u00e3o com 3 condensadores\u00a0com viol\u00e3o ac\u00fastico, at\u00e9 o uso do piezo que est\u00e1\u00a0em uma deminhas guitarras, com o som de viol\u00e3o de a\u00e7o. A\u00a0\u201cFrisell\u201d\u00a0por exemplo, tem viol\u00e3o de a\u00e7o tradicional, viol\u00e3o de a\u00e7o pelo piezo da guitarra, viol\u00e3o de nylon captado com condensador, e o\u00a0Godin\u00a0que tem o piezo da LR\u00a0Baggs.\u00a0No caso do que eu tenho, \u00e9 o condensador dentro do tampo do viol\u00e3o, com o cabo XLR. Ent\u00e3o\u00a0quer dizer, \u00e9 uma mistura. A gente fez outras coisas malucas. A gente chegou a gravar a guitarra em linha, passando depois pro\u00a0amp,\u00a0microfonando\u00a0oamp\u00a0e passando de novo para\u00a0os\u00a0processadores de som. A gente gravou guitarra pura s\u00f3 com\u00a0reverb, a gente fez muita maluquice, e isso tamb\u00e9m tem essa proposta. Eu queria algu\u00e9m pra mexer no som, e muitos dos timbres doHarlem\u00a0nascem com a concep\u00e7\u00e3o do Paulo Assis. \u00c9 o disco que eu menos opinei sobre timbres. Eu sempre fui muito duro nessas coisas,\u00a0\u201cEu quero assim que quero assado\u201d, eu briguei muito com o Andr\u00e9 Ferraz nos dois primeiros discos (risos).\u00a0Dessa vez larguei um pouco isso pra tamb\u00e9m experimentar, e eu acho que fazer musica instrumental \u00e9 experimentar um pouco. Voc\u00ea n\u00e3o pode ser o compositor, o interprete, o produtor, o dono da banda, o que toca, o que paga\u00a0a\u00a0conta e o que recebe. Quer dizer, tem uma hora que voc\u00ea tem que deixar um pouco a cargo do outro, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o concorde cem por cento, no fundo essa diversidade de opini\u00e3o faz bem pro trabalho, por que sen\u00e3o voc\u00ea fica naquele disco que s\u00f3 tem a sua cara, do seu jeito, e o seu jeito nunca \u00e9 o jeito do outro. Ent\u00e3o \u00e9 bom deixar um pouco aberto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rolou grava\u00e7\u00e3o ao vivo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; A gente gravou as cozinhas juntos. E junto comigo fazendo guia. Acho que uma guia virou oficial. A gente gostou e deixou. Mas as cozinhas foram junto sim.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu notei uma carga de \u2018drive\u2019 a mais nas musicas do\u00a0Harlem. H\u00e1 um n\u00famero bem maior de guitarras rasgadas do que nos discos anteriores.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Se voc\u00ea pegar\u00a0o\u00a0Infinito,\u00a0o\u00a0Argila\u00a0e o\u00a0Harlem, voc\u00ea ver\u00e1 que eu n\u00e3o tinha feito isso antes, ent\u00e3o era um caminho meio natural. E estruturalmente pra fazer a guitarra\u00a0\u201ccantar\u201d, o drive me possibilita que eu tenha uma concep\u00e7\u00e3o de homogeneidade do som maior do\u00a0que a guitarra limpa, ent\u00e3o n\u00f3s optamos sempre por um som um pouco mais pesado e denso pra que eu pudesse fazer essas melodias na guitarra mais encorpadas. Eu n\u00e3o quis fazer um disco de rock, mas \u00e9 um disco mais aberto. Mas tem muitos sons limpos de guitarra que n\u00e3o parecem guitarra. Tem tamb\u00e9m guitarra portuguesa na\u00a0XXV,\u00a0XXVII, que \u00e9 um instrumento que eu trouxe de Lisboa,\u00a0uma afina\u00e7\u00e3o totalmente diferente,com 10 \u00a0cordas.\u00a0Tem sons de guitarra limpa que parecem sintetizador, mas s\u00e3o sons de guitarra. Eu optei por usar um pouco mais de drive sim, um pouco mais \u201con\u00a0the\u00a0edge\u201d, um pouco mais de press\u00e3o talvez. Por que tamb\u00e9m eu n\u00e3o tinha feito isso antes, e eu quis experimentar um pouco mais. E ainda vou chegar a gravar discos mais barulhentos eu acho. Por que a guitarra tem uma caracter\u00edstica el\u00e9trica barulhenta. (risos).\u00a0Basta ouvir o\u00a0Zero\u00a0Tolerance\u00a0For TheSilence\u00a0do Pat\u00a0Metheny\u00a0pra voc\u00ea ver onde a gente pode chegar com o barulho. Imagina um disco do Pat\u00a0Metheny\u00a0que inspirou o\u00a0Sonic\u00a0Youth. Existe uma concep\u00e7\u00e3o que \u00e9 diferente de botar um drive no 10. Peso n\u00e3o \u00e9 quantidade\u00a0dedrive ou\u00a0distortion. Muita gente quebra a perna nesse sentido de querer sempre mais peso, e vai botando 2 ou 3 pedais, tudo no 10. Peso \u00e9\u00a0\u201cgordura\u201d\u00a0de som. E a gordura de som se consegue timbrando, com o captador, corda, jeito, pegada e tamb\u00e9m amplifica\u00e7\u00e3o e manuseio. Nunca usar os\u00a0presets. A gente virou de cabe\u00e7a pra baixo os sons. A gente ficava duas horas as vezes mexendo num som pra fazer um\u00a0take\u00a0de 30 segundos.\u00a0A\u00a0gente gastou muito tempo na timbragem desse disco. S\u00e3o mini detalhes que duram segundos mas que pra serem feitos demoraram 2 ou 3 horas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m tocou a guitarra portuguesa, alguns pianos e\u00a0synth.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0&#8211;\u00a0Piano eu fiz uma ou duas coisinhas, s\u00f3 arranho, mas dentro dessa concep\u00e7\u00e3o que eu queria pro disco eu achei que seria interessante. A guitarra portuguesa e um instrumento maravilhoso. Eu n\u00e3o afino da forma tradicional, eu afino em paralelo da guitarra. Afina\u00e7\u00e3o em quartas, e da terceira pra segunda corda em ter\u00e7a maior. S\u00f3 que eu fa\u00e7o uma quinta justa abaixo,\u00a0pois n\u00e3o teria como afinar uma oitava acima da guitarra, n\u00e3o daria certo. Ent\u00e3o quando eu\u00a0toco\u00a0um formato de D\u00f3 maior, ela est\u00e1 soando\u00a0uma quinta abaixo, ou seja, um Sol maior. Na verdade eu afino com uma simetria pra eu n\u00e3o ter que aprender a tocar o instrumento na sua afina\u00e7\u00e3o tradicional. Sen\u00e3o eu teria que me dedicar a isso, e hoje\u00a0na minha carreira eu n\u00e3o teria tempo, n\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o queira. Mas foi legal, eu fiz uma musica com a guitarra portuguesa, a\u00a0\u201cXXV,\u00a0XXVII\u201d\u00a0foi composta nesse instrumento, que \u00e9 tradicional\u00a0do Fado Portugu\u00eas. Quando fui pra Lisboa\u00a0em 2011, comprei\u00a0esse instrumento de um\u00a0luthier, mas obviamente eu n\u00e3o iria usar tocando fado (risos). Eu at\u00e9 uso com a Faf\u00e1, mas n\u00e3o no meu disco. Ent\u00e3o a guitarra portuguesa entrou como um instrumento de composi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. \u00c9 uma coisa que a musica contempor\u00e2nea sinf\u00f4nica, contempor\u00e2nea erudita, seja l\u00e1 o nome que se d\u00ea, de vanguarda tem, que \u00e9 pegar a instrumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tradicional e trabalhar com a sonoridade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp17a.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-4219 alignleft\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp17a.jpg\" alt=\"EntrevistaGtrExp17a\" width=\"392\" height=\"214\" \/><\/a>E esse trabalho com a Faf\u00e1? Isso influi nas suas composi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu\u00a0t\u00f4\u00a0com ela\u00a0desde 2010, quase 4 anos. Tr\u00eas viagens pra Lisboa, Brasil inteiro. Me inspira como musico. Era uma das coisas que eu queria fazer, pois n\u00e3o tinha feito ainda. \u00c9 um trabalho que representa\u00a0muita import\u00e2ncia pra mim, mudou muito a concep\u00e7\u00e3o no jeito de tocar. J\u00e1 toquei com ela pra mais de 30 mil pessoas, a gente toca em palcos muito grandes,\u00a0em situa\u00e7\u00f5es de muito risco pois ela muda o repert\u00f3rio sempre. Existe um\u00a0trio principal da banda que \u00e9 Tico na bateria, o Caran no piano e o Loyola no baixo,\u00a0que est\u00e3o com ela a 30 anos. S\u00e3o m\u00fasicos que vem da d\u00e9cada de 60, ent\u00e3o \u00e9\u00a0completamente diferente. O Loyola \u00e9\u00a0o cara que\u00a0gravou eu e a brisa do Johnny Alf, musica seminal\u00a0da bossa nova, quando tinha 18 ou\u00a019 anos. \u00c9 um cara que j\u00e1 fez de tudo, e tem uma hist\u00f3ria no contrabaixo que \u00e9 inacredit\u00e1vel. Tocar do lado dele, do Caran,\u00a0um\u00a0super\u00a0arranjador, o\u00a0Tico, o primeiro baterista do Brasil a usar bateria eletr\u00f4nica na d\u00e9cada de 80. Caras que gravaram todos os discos de cantores que voc\u00ea possa imaginar. E isso me da muito\u00a0respaldo. Tocar com eles, ser aceito nessa situa\u00e7\u00e3o. Um lugar onde j\u00e1 tocou Sandro\u00a0Haick,\u00a0Tomati,Tuco\u00a0Marcondes, m\u00fasicos excelentes. Estar com eles me d\u00e1 um respaldo no sentido de que eu\u00a0estou\u00a0com eles de igual pra igual, eles me aceitam, a gente se d\u00e1 bem dentro e fora do palco. E isso me inspira como musico. Mas em composi\u00e7\u00e3o, tirando o fato da guitarra portuguesa que foi em uma das viagens, n\u00e3o muda muito. Abre muito a cabe\u00e7a, e cria tamb\u00e9m condi\u00e7\u00f5es de resolver situa\u00e7\u00f5es perigosas ao vivo, por que a gente realmente \u00e9\u00a0obrigado a\u00a0\u201cse virar nos 30\u201d\u00a0(risos). Muitas vezes voc\u00ea toca com monitor, e n\u00e3o est\u00e1 se ouvindo, t\u00e1acontecendo o show, e o show n\u00e3o pode parar (risos).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em determinado momento h\u00e1 uma vinheta que nos remete a melodia de \u201cPaul Auster\u201d. Tem um carinho especial por ela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu\u00a0tenho carinho por todas elas. H\u00e1\u00a0outros momentos que acontece isso. Na\u201cXXV,\u00a0XXVII\u201d h\u00e1\u00a0uma cita\u00e7\u00e3o da \u201cRothko\u201d\u00a0no final da musica. Ent\u00e3o h\u00e1 essa costura. S\u00e3o 10 faixas que representam\u00a0uma obra, ent\u00e3o elas s\u00e3o costuradas. Em varias musicas v\u00e3o entrando sons, vai chegando a pr\u00f3xima. Eu n\u00e3o quis fazer isso toda\u00a0hora sen\u00e3o perde a gra\u00e7a. Tem dois ou tr\u00eas\u00a0momentos que acontece isso. N\u00e3o \u00e9 muito claro, tem que estar atento pra pegar, s\u00e3o momentos bem distintos, com instrumenta\u00e7\u00f5es distintas.\u00a0Eu gosto de\u00a0todas obviamente. Gosto muito da\u00a0\u201cPaul Auster\u201d, \u00e9 uma musica que nasceu totalmente no viol\u00e3o. A\u00a0\u201cBeck-O-La\u201d\u00a0\u00e9 uma balada. Eu queria gravar\u00a0uma balada que a gente pudesse cantar na voz. Gosto de todas. Sou o pai, n\u00e3o posso escolher uma (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quanto aos equipamentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Uma diversidade enorme de coisas. Todos os\u00a0meus instrumentos foram usados. Eu uso hoje principalmente duas guitarra\u00a0MusicMaker, a\u00a0Paulkaster,que \u00e9 uma\u00a0telecaster\u00a0de\u00a0Ash\u00a0semiac\u00fastica. A\u00a0Strato\u00a0que tem o piezo, as duas tem Sergio Rosar, trastes de inox, a\u00a0Strato\u00a0tem o piezo da\u00a0Graphtech. Essas foram usadas extensivamente. A gente fez umas coberturas com guitarras antigas, duas guitarras que o Paulo Assis tem, uma\u00a0Les\u00a0Paul e uma\u00a0Strato. Eu usei pra ter\u00a0layers\u00a0diferentes. Um viol\u00e3o\u00a0Cort\u00a0de a\u00e7o, o\u00a0Cafe\u00a0do Ulisses\u00a0Rocha,o\u00a0Godin, a guitarra portuguesa, um outro viol\u00e3o ac\u00fastico da Di Giorgio, um 12 cordas que eu n\u00e3o lembro a marca. Foram usados duas capta\u00e7\u00f5es com oFalcon\u00a0212 da Meteoro, um outro\u00a0amp\u00a0do Paulo Assis, um\u00a0tranzistor,\u00a0e muita coisa de soft synths, mais de 20 pedais.\u00a0Delay,\u00a0chorus\u00a0reverb, o nova systemTc\u00a0Eletronics, M13\u00a0Line\u00a06,\u00a0Guitar\u00a0Rig\u00a0com\u00a0Rig\u00a0Control,\u00a0Wha-Wha\u2019s\u00a0Dunlop,Onner, as vezes s\u00f3 aberto no meio, mudando a frequ\u00eancia. N\u00e3o sei nem se d\u00e1 pra listar tudo isso. Eram paletas dispon\u00edveis. A gente usou uma infinidade de processadores de guitarra, que eu queria explorar esses sons tamb\u00e9m. Eu acredito nisso. Vai soar meio pol\u00eamico, mas se Hendrix estivesse vivo hoje, ele n\u00e3o estaria olhando pra sons de 40 ou 30 anos atr\u00e1s, ele estaria olhando com o que mais temos de tecnologia pra frente, que \u00e9 o que ele fez na \u00e9poca. S\u00f3 que todo mundo pega essa tecnologia hoje e fica tentando simular um\u00a0ampvalvulado de 63, eu n\u00e3o entendo o sentido disso. E o que \u00e9 pior, quase todo mundo que tenta simular um\u00a0amp\u00a0de 63, nunca escutou o\u00a0amp\u00a0original, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um simulado, \u00e9\u00a0um simulacro. Se voc\u00ea procurar o significado dessa palavra, \u00e9\u00a0a tentativa de simular algo que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9, n\u00e3o existe. \u00c9doideira isso. Se a gente tem tudo isso hoje, pra que tentar ficar soando como um\u00a0amp\u00a0valvulado de 70\u00a0bicho, olha pra frente. Quanta coisa nova da pra fazer com a guitarra. Um instrumento el\u00e9trico que por natureza sem eletricidade ela n\u00e3o tem som. Voc\u00ea\u00a0tem uma possibilidade com tanta coisa, eu cresci numa \u00e9poca que era dif\u00edcil ter as coisas, meu primeiro pedal\u00a0eu fiquei meses s\u00f3 usando ele. Quando tive um\u00a0delay, era inacredit\u00e1vel.\u00a0Eu escutava o\u00a0Gilmourque queria saber como ter aquele som. A gente n\u00e3o sabia teoria, mas a gente usava, explorava na cara e na\u00a0coragem. Hoje \u00e9 muito legal, o cara compra, baixa, vai no\u00a0YouTube, o cara ensina a usar. S\u00f3\u00a0que eu acho\u00a0que se perdeu um pouco a refer\u00eancia sonora art\u00edstica, e tamb\u00e9m\u00a0de estudar. \u00c9\u00a0muita coisa, voc\u00ea n\u00e3o tem mais o tempo de assimila\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A capa do disco ficou muito bacana, qual a hist\u00f3ria dela.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Essa capa tem chamado aten\u00e7\u00e3o em todos os lugares.\u00a0Sempre gostei dessa ideia, mas me surpreendeu que praticamente 100% das pessoas que vieram falar sobre o disco comigo, comentaram da beleza da capa.\u00a0Essa \u00e9 uma foto da Camila Fernandes, fot\u00f3grafa aqui de SP. Ela foi pra Nova\u00a0Iorque e eu pedi pra ela fazer algumas fotos do\u00a0Harlem. Est\u00e1 \u00e9 uma foto do\u00a0Harlem. N\u00e3o tem nada mexido ai a n\u00e3o ser um ajuste de cor. Mas a foto original \u00e9 muito similar ao que essa foto \u00e9.\u00a0Ela foi\u00a0me mostrando v\u00e1rias fotos, e na hora que eu vi eu falei \u201c\u00e9essa foto\u201d, e desde ent\u00e3o a capa n\u00e3o mudou mais. Essa foto tem a quadratura perspectiva incr\u00edvel. \u00c9\u00a0uma foto urbana do bairro, e tem um cara subindo na bicicleta, voc\u00ea vai vendo no meio da rua meio que solid\u00e3o no meio da cidade. O farol fechado l\u00e1\u00a0na\u00a0frente. Quer dizer, representa muita coisa. A cor do tijolo, a cor dessa urbanidade, e tem uma coisa meio antiga. Deu certo a foto e a capa ficou matadora. N\u00e3o e pintura, montagem, nem truque, \u00e9 uma boa foto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea encara esse \u201cnovo mundo\u201d de m\u00eddias digitais e essa\u00a0queda enorme no que diz respeito a venda do disco \u201cf\u00edsico\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Eu acredito em disco ainda, o formato na minha opini\u00e3o\u00a0vai\u00a0acabar sendocomo acontece hoje com o vinil. Vai entrar em um nicho de compradores. \u00c9muito raro\u00a0hoje\u00a0escutarem disco como obra. Ent\u00e3o\u00a0na verdade estamos na contra m\u00e3o, mas \u00e9 bom estar na contra m\u00e3o, por que tamb\u00e9m faz essa diferencia\u00e7\u00e3o dessa loucura de m\u00eddia social,\u00a0onde todo mundo acha que virou artista, todo mundo acha que\u00a0\u00e9 s\u00f3\u00a0gravar qualquer coisa em casa e lan\u00e7ar. Eu demorei dois\u00a0anos pra fazer um trabalho, fechar uma etiqueta, pra colocar um selo. A capa, a foto, o\u00a0trabalho\u00a0gr\u00e1fico, a costura das musicas, a caixa. Eu acho que isso diferencia, por mais dif\u00edcil que seja, diferencia\u00a0o trabalho. Acho\u00a0que o disco vai existir sempre. Por mais que mude o formato,\u00a0o trabalho vai existir sempre. Vai entrar num nicho, cada vez voc\u00ea tem mais a perspectiva de compradores segmentados. A gente vai partir\u00a0o ano que vem pra venda digital tamb\u00e9m, no\u00a0iTunes, na\u00a0Amazon,\u00a0como obra, s\u00f3 que ai voc\u00ea\u00a0n\u00e3o tem mais controle da obra,\u00a0pois a pessoa pode comprar faixas separadas. O\u00a0Harlemperde um pouco o sentido se voc\u00ea\u00a0escuta a faixa 4 e depois a 1, por que a costura n\u00e3o \u00e9 mais a mesma, mas isso \u00e9\u00a0uma coisa inevit\u00e1vel, mas a obra vai sempre existir, sempre tem essa op\u00e7\u00e3o. Eu acho que n\u00e3o morre, como n\u00e3o vai morrer o livro, como n\u00e3o morre o cinema, como nem o vinil morreu. \u00c9 um nicho, voc\u00ea\u00a0n\u00e3o atinge todo mundo ao mesmo tempo, n\u00e3o fala com todo mundo ao mesmo tempo. Eu acho que com o passar do tempo esse trabalho se paga artisticamente, pois\u00a0que isso vai diferenciando voc\u00ea\u00a0dessa n\u00e9voa de mesmice ideol\u00f3gica, essa homogeneidade, esse pensamento que eu chamo de ovelha, carro branco, um pensamento meio que \u201co que vale mais \u00e9 quantos\u00a0views\u00a0deYouTube\u00a0voc\u00ea\u00a0tem do que a musica\u201d. Eu aceito isso, participo disso. Tenho l\u00e1meu site, v\u00eddeos,\u00a0entrevista,\u00a0Facebook, mas eu n\u00e3o valorizo isso, quando isso passar\u00a0eu vou sobreviver por que eu\u00a0t\u00f4\u00a0fora disso, vai ter muita gente que quando isso passar n\u00e3o vai sobreviver por que n\u00e3o tem nada que sobre, al\u00e9m disso. Sorte pra todo mundo, pelo amor de Deus, n\u00e3o\u00a0estou\u00a0falando que sou melhor que ningu\u00e9m, pelo contrario, eu estou inserido, mas eu acho que voc\u00ea\u00a0\u00e9 o que voc\u00ea\u00a0planta, ent\u00e3o voc\u00ea tem uma const\u00e2ncia nessa a\u00e7\u00e3o\u00a0e rea\u00e7\u00e3o. E eu acho que o disco \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que vai gerar uma outra rea\u00e7\u00e3o\u00a0na cadeia da sua carreira.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp23_peqa.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-4220 alignright\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/EntrevistaGtrExp23_peqa.jpg\" alt=\"EntrevistaGtrExp23_peqa\" width=\"448\" height=\"298\" \/><\/a>\u00a0<\/em><strong>Como o Andr\u00e9 Martins agiria ent\u00e3o se come\u00e7asse a carreira nos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0&#8211; De uma certa forma essa pergunta \u00e9 irrespond\u00edvel. Mas eu vou te responder como eu acho que d\u00e1. Tudo e quest\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o. E na sua forma\u00e7\u00e3o voc\u00eaacredita em algumas coisas, e outras n\u00e3o, ent\u00e3o voc\u00ea aprende o que \u00e9\u00a0certo e errado, os valores. Se eu tivesse come\u00e7ando hoje, com 20 anos, eu ia fazer o poss\u00edvel pra estudar muito, tentar descobrir as pessoas que pudessem me trazer experi\u00eancias e ensinamentos, como eu fiz no passado. Fui viajar, larguei carreira, era redator de agencia de propaganda, larguei e fui atr\u00e1s do que eu queria. Estava estudando na funda\u00e7\u00e3o das artes e tal, mas no Brasil n\u00e3o tinha o que eu queria, ent\u00e3o eu mudei minha vida pra isso. E\u00a0gravaria discos, gravaria por que existe um valor intr\u00ednseco na obra. Agora\u00a0\u00e9 \u00f3bvio que, quem n\u00e3o vem disso\u00a0talvez tenha uma dificuldade maior de entender. Mas voc\u00ea tem que entender que a gente\u00a0est\u00e1\u00a0falando dessa mesmice de pensamento.\u00a0Se todo mundo t\u00e1\u00a0olhando pra um lado, primeiro, questione.\u00a0Se todo mundo t\u00e1 falando que uma coisa \u00e9 azul, ser\u00e1 que \u00e9 azul mesmo? Ai voc\u00ea come\u00e7a a olhar e percebe que \u00e9 verde.\u00a0Ai voc\u00ea fala:\u00a0\u201cp\u00f4 bicho, n\u00e3o \u00e9 azul, \u00e9 verde\u2026mas t\u00e1 todo mundo falando que \u00e9 azul\u201d. Ent\u00e3o pode ser do\u00a0interesse de algu\u00e9m ou de\u201calgu\u00e9ns\u201d\u00a0que seja azul.\u00a0Ent\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a uma outra ideologia. Eu sempre fui muito questionador. Libert\u00e1rio e questionador. Li muito, ent\u00e3o eu acho que isso abre a cabe\u00e7a.\u00a0E veja, eu n\u00e3o estou falando de estilo. N\u00e3o \u00e9 rock, ou Jazz. Eut\u00f4\u00a0falando de pensamento de carreira, de vida. Se t\u00e1 todo mundo fazendo igual, a mesma coisa, se t\u00e1 todo mundo no mesmo lugar,\u00a0se t\u00e1 todo mundo nofacebook\u2026eu\u00a0tive uma experi\u00eancia de ficar um ano e meio fora do\u00a0facebook. Eu voltei agora por conta do lan\u00e7amento do disco, por entender que existe um mercado que precisa ser suprido com esse tipo de informa\u00e7\u00e3o. Mas pessoalmente foi um ano e meio sab\u00e1tico muito interessante. E o mais incr\u00edvel \u00e9: Eu n\u00e3o mudei nada na minha vida a n\u00e3o ser ficar esse tempo fora dofacebook. E muita gente falava \u201cAndr\u00e9, mas o que\u00a0aconteceu? Por\u00a0que voc\u00ea sumiu?\u201d eu respondia \u201cN\u00e3o aconteceu nada,\u00a0ta\u00a0tudo muito bem, muito bom\u00a0e eu n\u00e3o sumi, eu continuo com o mesmo e-mail, o mesmo celular, o mesmoendere\u00e7o, o mesmo lugar de trabalho, eu s\u00f3 sai dessa jaca\u201d. E isso me fez pensar muito. Foi importante fazer essa reflex\u00e3o. E\u00a0eu queria ficar mais tempo fora. Eu n\u00e3o quero ser o cara que hoje fica na Galeria do Rock, tomando cerveja quente e falando que o\u00a0Deep\u00a0Purple\u00a0n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo (risos), ou que bom mesmo era o Led Zeppelin no segundo disco. Por que\u00a0o tempo passa, o meu trabalho t\u00e1\u00a0ai, gravado com tecnologias novas, com experi\u00eancias novas, eu\u00a0t\u00f4\u00a0fazendo um mestrado na USP sobre novas coisas,\u00a0t\u00f4\u00a0escutando novos compositores,\u00a0t\u00f4\u00a0participando de uma banda na USP, com uma concep\u00e7\u00e3o de livre improvisa\u00e7\u00e3o, que \u00e9\u00a0uma linguagem completamente diferente do que a gente usa desse lado do mercado. Ent\u00e3o eu sempre estou\u00a0me levando pra coisas novas. Ent\u00e3o eu falei, \u201ceu vou voltar pro\u00a0facebook\u201d, mas eu domino isso, e n\u00e3o ele que me domina. Eu conhe\u00e7o gente hoje que n\u00e3o consegue largar essa depend\u00eancia do\u00a0facebook, do iPhone, do \u201conline\u201d. Conhe\u00e7o gente que teria at\u00e9 problemas psicol\u00f3gicos se essas coisas sumissem,\u00a0a vida ficaria sem sentido. Ent\u00e3o eu acho que isso reflete a maneira que essa nova gera\u00e7\u00e3o deve encarar as coisas. Leia mais,\u00a0estude mais, procure\u00a0ouvir musicas diferentes. Se t\u00e1\u00a0todo mundo falando que o fulano de tal \u00e9 legal, ok, mas se voc\u00ea n\u00e3o acha legal, assuma que\u00a0n\u00e3o\u00a0acha legal, n\u00e3o goste por que est\u00e1\u00a0todo mundo falando. A mesmice n\u00e3o serve, a unanimidade \u00e9\u00a0burra. Sempre seja um ponto questionador.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><strong>Fale dos m\u00fasicos que gravaram contigo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0&#8211; Outra coisa que foi feita de prop\u00f3sito. No primeiro trabalho, foi uma premia\u00e7\u00e3o,\u00a0fizemos um disco em conjunto, todo mundo junto. No\u00a0Argila, aquela profus\u00e3o de gente, cada um tocando diferente em uma faixa, v\u00e1rios convidados. No\u00a0Harlem, eu\u00a0queria que fosse um baixista, que foi o Rui\u00a0Barossi, baixo ac\u00fastico e el\u00e9trico. O Bruno Iasi, bateria e percuss\u00e3o. E eu queria o Paulo Assis como engenheiro de som, que acabou virando o quarto elemento, pela concep\u00e7\u00e3o sonora. Ele ultrapassou a t\u00e9cnica da engenharia de som pra virar um contribuinte nas timbragens, criou algumas vinhetas, ent\u00e3o ele entrou como quarto integrante. O Rui e o Bruno tocam j\u00e1 a alguns anos comigo ao vivo. Tenho um trio que as vezes vira quarteto com o Ricardo\u00a0Giuffrida. Eu estou\u00a0em um semestre extremamente ocupado com o lan\u00e7amento, a divulga\u00e7\u00e3o e o mestrado, shows com a Faf\u00e1 e as aulas. Ent\u00e3o a gente t\u00e1 fazendo a divulga\u00e7\u00e3o primeiro, a entrega f\u00edsica em loja, e toda a parte da m\u00eddia, entrevistas, sites, onde encontrar o disco. A gente vai usar esse per\u00edodo do fim do ano pra fazer essa parte, pois queremos que o disco esteja bem distribu\u00eddo ate chegar dezembro. Vai ter um show em janeiro, a data ainda a definir. A gente vai fazer um show de lan\u00e7amento do disco, provavelmente no Rio de Janeiro tamb\u00e9m. Eu gosto da ideia de fazer um show de lan\u00e7amento dotrabalho.\u00a0A gravadora tamb\u00e9m acredita na venda digital, acho que\u00a0estar\u00e1 dispon\u00edvel\u00a0a partir de janeiro. E fazer cl\u00ednicas tamb\u00e9m pra falar desse\u00a0trabalho. Infelizmente hoje no Brasil n\u00e3o existe um circuito de musica instrumental. Se eu quiser pegar meu quarteto e ir pra recife, eu n\u00e3o vou conseguir por que s\u00e3o quatro passagens a\u00e9reas, estadia, cach\u00ea.\u00a0Infelizmente, fora o eixo Rio-S\u00e3o Paulo, a gente se sustenta muitas vezes indo sozinho. As vezes vou fazer uma cl\u00ednica, workshop, e falo um pouco do meu trabalho. A gente n\u00e3o tem o circuito que existe em outros lugar, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde por exemplo, o\u00a0Scofield\u00a0pega a banda dele e excursiona dois ou tr\u00easmeses tocando as musicas que vai gravar, da\u00ed entra em est\u00fadio e em uma semana grava o disco. A gente n\u00e3o tem essa possibilidade, economicamente falando. Ent\u00e3o a gente faz da maneira que\u00a0a gente consegue fazer. O disco vai estar na Livraria Cultura, Livraria da Vila, Saraiva, na\u00a0Pop\u2019s,\u00a0Freenote, Livraria da Travessa e Loja\u00a0Tracks\u00a0(RJ). No meu site tem o\u00a0link direto para o BRMusicStore, que \u00e9 a loja virtual da gravadora, l\u00e1 tem a listagem de todas as lojas dispon\u00edveis pra venda f\u00edsica. Voc\u00ea pode comprar\u00a0tamb\u00e9m diretamente do BR\u00a0MusicStore.\u00a0A partir\u00a0de\u00a0janeiro vai estar na\u00a0Amazon,\u00a0iTunes. \u00c9 um trabalho que vai estar dispon\u00edvel, quem quiser vai ter como achar. (risos).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa \u00e9 o seu segundo disco pela Black Records. Como \u00e9 essa parceria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sim, o segundo disco j\u00e1. O infinito eu tamb\u00e9m estou levando pra Black Records digital. N\u00e3o sei se faz muito sentido lan\u00e7ar agora nesse pr\u00f3ximo ano, o disco f\u00edsico, mas ele vai pro cat\u00e1logo da Black tamb\u00e9m. A Black Records sempre apostou muito em mim, eu tenho total confian\u00e7a. Acho que parceria \u00e9 isso, confian\u00e7a. Eu tive parcerias minhas no passado que lan\u00e7aram alguns trabalhos meus de livros,\u00a0DVD\u2019s, que foram muito ruins. Algu\u00e9m ganhou muito dinheiro e eu n\u00e3o ganhei quase nada. Eu sei de livros meus que se esgotaram com tiragem de 15 mil exemplares, e eu n\u00e3o ganhei nenhum centavo.\u00a0Est\u00e1 em negocia\u00e7\u00e3o um processo, enfim. A parceria com a Black Records funciona, \u00e9 cristalina, de confian\u00e7a absoluta. A Black Records \u00e9 hoje no Brasil um dos poucos selos que tem uma diversidade muito grande: Dado Villa-Lobos, Jo\u00e3o Castilho, Rafael Nery. Artistas muito diferentes entre si, mas que tem trabalhos instigantes. E funciona. A distribui\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o. \u00c9\u00a0um selo muito honesto e muito profissional, no sentido de levar o disco,\u00a0fazer\u00a0as negocia\u00e7\u00f5es. Voltando naquele ponto sobre n\u00e3o ser o cara que faz tudo sozinho, voc\u00ea tem que ter gente te ajudando. A Black faz isso muito bem, levando isso que a gente produz no est\u00fadio at\u00e9 o publico.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de homenagear escritores em suas musicas, voc\u00ea tamb\u00e9m escreve. As colunas Guitarra Zen tinham muitos leitores. Existe alguma possibilidade disso virar livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu gosto de escrever. Se n\u00e3o fosse m\u00fasico, eu seria escritor. Viveria de alguma forma escrevendo. Fui redator em agencia de propaganda,\u00a0conheci um pouquinho da \u00e9poca \u00e1urea da propaganda brasileira, que tamb\u00e9m passou por essa transforma\u00e7\u00e3o maluca, mas eu conheci alguns dos grandes nomes. Trabalhei nisso durante 2 ou 3 anos, por op\u00e7\u00e3o larguei por que a musica sempre falou mais forte. Acho que vai ser sempre assim, literatura sempre vai inspirar as obras. N\u00e3o acredito que isso acabe um dia. Uma das coisas que eu mais gosto de fazer \u00e9 ler. Quanto ao Guitarra Zen, eu tenho todos esses textos, aos poucos est\u00e3o entrando no meu site novo. Eu tenho uma negocia\u00e7\u00e3o\u00a0com uma grande editora pra lan\u00e7ar o livro, mas est\u00e1 emperrada por minha culpa, de n\u00e3o ter ido mais atr\u00e1s por falta de tempo. N\u00e3o sei, mas acho que pode ser que um dia saia uma compila\u00e7\u00e3o, mas vou escrevendo de outras formas, outros lugares, outras m\u00eddias, mas o que a Guitarra Zen fez na \u00e9poca foi muito bacana, prop\u00f4s algo novo. Isso pode acontecer de\u00a0novo, n\u00e3o\u00a0necessariamente como Guitarra Zen, mas de outras formas. Literatura \u00e9 muito importante, sempre foi e sempre ser\u00e1.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea sabe que ajudou muita gente atrav\u00e9s dos seus textos no Guitarra Zen. Qual mensagem voc\u00ea deixaria hoje para as pessoas que v\u00e3o ler essa entrevista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu fico sempre muito feliz. At\u00e9\u00a0hoje\u00a0continuo recebendo mensagens. Cheguei a receber carta, depois e-mails, essas coisas. As pessoas realmente gostam,\u00a0eu fico impressionado como isso tem durabilidade. Isso tudo foi feito muito de cora\u00e7\u00e3o, como todos os meus trabalhos, e tamb\u00e9m esse disco, ele carrega muito cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o uma mensagem pra quem est\u00e1 lendo, pra quem vai ler, pra quem ouve, quem t\u00e1 come\u00e7ando, e quem j\u00e1 toca a 40 anos, quem tem o sonho, quem tinha o sonho. Fa\u00e7a as coisas com seu cora\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00e9 muito obvio, meio clich\u00ea, \u00e9\u00a0como falar de amor, aquela coisa, todo mundo fala, mas s\u00e3o poucas as vezes que a gente usa. Fazer as coisas com o cora\u00e7\u00e3o faz as coisas ganharem vida. E quando as coisas ganham vida, elas ganham cor, ganham sabor, ganham diversidade. Acho\u00a0que o que falta hoje no mundo \u00e9\u00a0mais vida, mais cora\u00e7\u00e3o, mais pureza. Estudem, leiam, procurem praticar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, mas fa\u00e7am com o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entrem na leva do senso comum. Fa\u00e7a o que voc\u00ea gosta, o que voc\u00ea\u00a0quer, com o cora\u00e7\u00e3o. Pode ser devagar, pode ser muito devagar, mas voc\u00ea\u00a0vai conseguir atingir os seus objetivos, as suas vontades, atingir as pessoas,\u00a0de uma forma ou de outra\u00a0voc\u00ea vai chegar at\u00e9\u00a0elas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Obrigado a equipe do\u00a0Guitar\u00a0Experience por mais essa\u00a0oportunidade. E escutem o\u00a0Harlem, se gostarem, comprem, o f\u00edsico ou digital, prestigiem, por que a gente tamb\u00e9m precisa da divulga\u00e7\u00e3o de todo mundo, dos leitores, dos f\u00e3s, dos outros artistas, das outras m\u00eddias. A gente precisa muito divulgar o nosso trabalho.<\/em><br \/>\n<strong><em>(entrevista gravada e transcrita em setembro de 2013, S\u00e3o Paulo)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para adquirir o novo album de Andr\u00e9 Martins acesse <strong><a href=\"http:\/\/www.brmusicstore.com\/\" target=\"_blank\">www.brmusicstore.com<\/a>\u00a0\/\u00a0<\/strong><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><strong><a href=\"http:\/\/www.andremartins.com.br\/\" target=\"_blank\">www.andremartins.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Guitarrista Andr\u00e9 Martins conta tudo sobre o seu novo trabalho solo intitulado &#8220;Harlem&#8221; Como nasceu o\u00a0Harlem? &#8211; O\u00a0Harlem\u00a0nasce\u00a0em 2010<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":378,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/377"}],"collection":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=377"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":380,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/377\/revisions\/380"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/378"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}