
{"id":262,"date":"2013-01-27T20:10:31","date_gmt":"2013-01-27T20:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/?p=262"},"modified":"2015-09-11T20:16:42","modified_gmt":"2015-09-11T20:16:42","slug":"mozart-mello-35-anos-de-dedicacao-ao-ensino-por-andre-sampaioandre-martinsluiz-claudio-de-souza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/?p=262","title":{"rendered":"Mozart Mello 35 anos de Dedica\u00e7\u00e3o ao Ensino (por Andr\u00e9 Sampaio\/Andr\u00e9 Martins\/Luiz Cl\u00e1udio de Souza)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/moz-460x261.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-263\" src=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/moz-460x261.jpg\" alt=\"moz-460x261\" width=\"460\" height=\"261\" srcset=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/moz-460x261.jpg 460w, http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/moz-460x261-300x170.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma conversa descontra\u00edda e informal, o mais respeitado professor de guitarra do Brasil, Mozart Mello, comemora seus<\/strong>\u00a0<strong>35 anos de dedica\u00e7\u00e3o ao ensino da guitarra. De presente, fala de sua trajet\u00f3ria como m\u00fasico, do in\u00edcio nos ensaios no por\u00e3o enquanto garoto e como caminhou para os palcos internacionais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM- Fale um pouco sobre o in\u00edcio da sua carreira.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7ar gostaria de fazer um coment\u00e1rio rid\u00edculo que \u00e9 sobre o meu nome. Meu pai tamb\u00e9m se chamava Mozart, ent\u00e3o ele me sacaneou (risos). \u00c9 como se eu tivesse que ser m\u00fasico, j\u00e1 que ganhei esse nome. Minha fam\u00edlia sempre foi muito musical, todo mundo tocava, minha m\u00e3e toca acordeom, meu pai tocava viol\u00e3o e piano, minha irm\u00e3 mais velha foi aluna de um aluno do Paulinho Nogueira e fui criado neste ambiente onde a m\u00fasica faz parte da educa\u00e7\u00e3o. Mesmo n\u00e3o tendo estudado, eu via todo mundo tocar e queria tocar tamb\u00e9m. At\u00e9 que entrou a fase da pr\u00e9-adolesc\u00eancia e adolesc\u00eancia, a era <i>Beatles <\/i>e tal. Os <i>Beatles <\/i>foram um empurr\u00e3o muito grande para minha gera\u00e7\u00e3o. O cara n\u00e3o tinha como n\u00e3o gostar de m\u00fasica. Era uma idolatria, muito complicado explicar. Eu me lembro que morava na Pomp\u00e9ia que j\u00e1 era um bairro de S\u00e3o Paulo movido \u00e0 m\u00fasica, e entrava na primeira sess\u00e3o de cinema, me escondia no banheiro e assistia \u00e0 segunda, terceira, via todas as sess\u00f5es. Minha gera\u00e7\u00e3o era assim. Era uma idolatria, os \u00eddolos eram m\u00fasicos e isso foi determinante na minha forma\u00e7\u00e3o e na da ga- lera da minha gera\u00e7\u00e3o. Imagine <i>Beatles <\/i>no final da d\u00e9- cada de 60, em 66 ou 67. Como eu nasci em 53, estava com aquela idade fat\u00eddica dos 13, 14 anos querendo me vestir como eles, querendo tocar as suas m\u00fasicas e tal. Deste modo n\u00e3o tem como negar que eles deram um grande empurr\u00e3o para minha carreira, mas at\u00e9 imaginar que fosse viver de m\u00fasica era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1967, eu j\u00e1 tocava na televis\u00e3o em um programa que imitava a jovem guarda chamado <i>Mini Guarda <\/i>e n\u00f3s t\u00ednhamos um cara que se chamava Ed Carlos, que era o Roberto Carlos Mirim. Existiam v\u00e1rias bandas que tocavam l\u00e1, inclusive <i>Os Minos, <\/i>que eram os novos baianos. Pepeu nem tocava guitarra, e sim contrabaixo. E eu tocava em uma banda chamada <i>Selvagens. <\/i>Nessa \u00e9poca, eu j\u00e1 tocava na televis\u00e3o tentando imitar a\u00a0<i>beatlemania. <\/i>O programa ia ao ar aos domingos ao vivo e os ensaios eram aos s\u00e1bados na TV Bandeirantes. Havia um programa l\u00e1 chamado <i>Quadrado Redondo <\/i>em que tocavam os <i>Mutantes, <\/i>por exemplo. Ent\u00e3o a divers\u00e3o da gente era ver os ensaios das grandes bandas e o som era para valer, pegada <i>rock\u2019 n roll <\/i>total (diz entusiasmado). Ent\u00e3o, ali foi o come\u00e7o de ter uma banda e sair tocando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Hoje em dia \u00e9 muito diferente do que voc\u00ea est\u00e1 contando, voc\u00ea era uma crian\u00e7a de 14 anos que tocava em uma banda de crian\u00e7as tamb\u00e9m, existiam os Mutantes que ensaiavam e tocavam na TV, os programas de televis\u00e3o davam abertura a este tipo de coisa. E hoje com a internet, iPOD, celular e tal, n\u00e3o vivenciamos estas coisas. \u00c9 dif\u00edcil para uma pes- soa de 14 anos tocar em uma banda desta grandeza, a n\u00e3o ser que haja indica\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que esteja produzindo algo novo como os Mutantes que esta- vam acontecendo naquele momento. Gostaria que voc\u00ea fizesse um contraponto destes momentos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom, o planeta mudou muito. Eu sou daqueles caras que, sem querer ser pessimista, acho que a civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 passando por um momento muito dif\u00edcil, um apocalipse dosado. N\u00f3s estamos nos matando na verdade e esta loucura toda nos cegou, principalmente na hora de pesar valores. N\u00e3o interessa mais se a pessoa tem ou n\u00e3o tem talento, o importante hoje \u00e9 quanto vou ganhar. Virou <i>business <\/i>total. Acabou-se a espontaneidade. Por exemplo, na minha \u00e9poca toc\u00e1vamos em bailinhos que era som ao vivo. Todo fim de semana eu estava tocando em alguma festa, podia ser de anivers\u00e1- rio, entendeu? Quer dizer, o m\u00fasico tocava m\u00fasica e as pessoas iam l\u00e1 para dan\u00e7ar. Se voc\u00ea fosse a um aniver- s\u00e1rio e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m tocando o pessoal perguntava: \u201cque tipo de festa \u00e9 esta?\u201d. E hoje \u00e9 completamente diferente. Hoje em dia, o cara vai com um aparelho de MP3 com milh\u00f5es de m\u00fasicas e tal. \u00c9 rid\u00edculo! As coisas que vejo s\u00e3o rid\u00edculas. Quando vejo fatos como esse, j\u00e1 fa\u00e7o uma leitura n\u00e3o musical. Eu digo, esta garotada que est\u00e1 na televis\u00e3o, provavelmente est\u00e1 por meio de empres\u00e1rios. Sem tirar o m\u00e9rito dos meninos, eles provavelmente est\u00e3o se sacrificando e acreditando no que fazem, e isso \u00e9 bacana, eles conseguiram espa\u00e7o, mas voc\u00ea vendo por este lado macro, n\u00e3o d\u00e1 mais, n\u00e3o tem como aparecer uma coisa espont\u00e2nea. Hoje em dia se resume a uma pessoa que investiu e vai ter que ter um retorno financeiro. Eu estou falando isso sem radicalismo. Acho que a coisa est\u00e1 funcionando desta maneira. Por\u00e9m, tenho visto muitos espa\u00e7os alternativos e a galera est\u00e1 mandando a ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 E como era na sua \u00e9poca? Tamb\u00e9m era necess\u00e1rio ter este tipo de contato?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea sabe que nem lembro como aconteceu? N\u00f3s toc\u00e1vamos muito e algu\u00e9m deve ter visto e gostado. Imagino que fizemos algum tipo de teste, o cara gostou e l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s, sem nenhum amigo importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Gostaria que voc\u00ea falasse mais sobre isso, j\u00e1 que boa parte dos nossos leitores s\u00e3o jovens e n\u00e3o tem esta refer\u00eancia. O acesso \u00e0 m\u00fasica na sua \u00e9poca era mais dif\u00edcil, mas em compensa\u00e7\u00e3o em 1959 ou 60, a m\u00fasica mais tocada no Brasil era Chega de Saudade. Hoje n\u00e3o se toca mais m\u00fasica desta qualidade.Tinha-se menos o que era mais, hoje se tem mais o que significa menos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja a diferen\u00e7a: vou citar um fato curioso de quan- do a gente pegou febre por m\u00fasica. Eu estudava em uma escola que se chama Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Souza, na Pomp\u00e9ia (bairro de S\u00e3o Paulo). Tamb\u00e9m estudavam l\u00e1 o Wander Taffo e o Juba que tocava na <i>Blitz. <\/i>N\u00f3s sa\u00edamos da escola e j\u00e1 \u00edamos tocar no por\u00e3o da casa do Juba e foi ali que comecei a tocar <i>Deep Purple, Led Zepelin, Blood Rock <\/i>e <i>Cream. <\/i>Meu Deus, como ouv\u00edamos <i>Cream!\u00a0<\/i>Certa vez, est\u00e1vamos em um bailinho e uma menina perguntou se poderia colocar um compacto duplo que tinha acabado de chegar. Era um vinil dos <i>Rolling Stones. <\/i>O que n\u00f3s fizemos? Roubamos o vinil (risos), fomos para o por\u00e3o e ficamos escutando at\u00e9 o dia seguinte. Eu me lembro de quando chegou o <i>Goodbye Cream, <\/i>que na minha opini\u00e3o foi o \u00e1pice do Eric Clapton, e n\u00f3s ficamos tirando as m\u00fasicas at\u00e9 o amanhecer. Voc\u00ea saboreava cada faixa. A molecada hoje n\u00e3o consegue mais isso, porque pode baixar toda a obra do artista e \u00e9 claro que n\u00e3o vai ter este cuidado. Hoje n\u00e3o tem mais gra\u00e7a n\u00e9, n\u00e3o \u00e9 assim?! O cara aperta l\u00e1 na internet, sexo, j\u00e1 est\u00e1 tudo ali ele n\u00e3o teve nem a oportunidade de pegar na m\u00e3o de uma menina, dar o primeiro beijo, abra\u00e7o, ter a primeira ere\u00e7\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 tempo. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que assumir que ficamos loucos e perdemos o fio da meada. Tudo que vier daqui para frente ser\u00e1 consequ\u00eancia desta loucura \u2028que vivemos. Voc\u00eas\u2028 sabem qual era um\u2028dos meus programas \u2028de s\u00e1bado \u00e0 tarde? Eu\u2028 ligava a televis\u00e3o em \u2028um programa chamado \u201cS\u00e1bado Som\u201d que\u2028 o Nelson Mota apresentava e l\u00e1 foi a primeira vez que tive contato com <i>Mahavishnu Orchestra, Deep Purple, Led Zepelin, Focus, <\/i>por este par\u00e2metro j\u00e1 d\u00e1 para perceber a discrep\u00e2ncia que existe de antigamente at\u00e9 os dias de hoje. Imagina, conheci <i>Mahavishnu Orchestra <\/i>na Globo!!! Sei que esta conversa parece papo de velho, mas me sinto um privilegiado por ter vivido e apreciado todas estas etapas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS- Como foi tocar na banda Terreno Baldio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso aconteceu em 1973 e eu j\u00e1 fazia engenharia. T\u00ednhamos muita influ\u00eancia de Gentle Giant, Yes, Jetro Thull. N\u00f3s \u00e9ramos amigos que estavam afim de tocar, mas o \u00fanico que sabia um pouco de m\u00fasica era o tecla- dista. Mas toc\u00e1vamos de ouvido e \u00edamos tocando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS- Como assim? Voc\u00eas foram pioneiros no estilo de rock progressivo, somando timbres e composi\u00e7\u00f5es totalmente coerentes, tanto que at\u00e9 hoje em sites especializados em rock progressivo voc\u00eas s\u00e3o citados.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bicho, rolou at\u00e9 entrevista em revista americana e japonesa! Foi uma loucura! N\u00f3s lan\u00e7amos 2 discos, at\u00e9 o segundo era sobre lendas brasileiras que j\u00e1 era uma encomenda da gravadora Continental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 Escrever sobre lendas brasileiras foi imposto pela gravadora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 f\u00e1cil de explicar. O irm\u00e3o do Eduardo Ara\u00fajo tinha uma gravadora que gostou do som, e depois conhecemos outro produtor que hoje em dia \u00e9 produtor na It\u00e1lia e ele nos disse: \u201cvamos gravar, mas vamos fazer o meio campo, voc\u00eas tocam pro- gressivo e eu escolho os temas. Dessa maneira voc\u00eas conseguem entrar no mercado a\u00ed e eu aqui\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tocar com o Terreno era e \u00e9 puro prazer! N\u00f3s at\u00e9 tocamos no come\u00e7o deste ano no festival Psicod\u00e1- lia, que \u00e9 tipo um Woodstock brasileiro. Foi Terreno Baldio e Mutantes. Foi demais! N\u00e3o sabia que existia um lugar igual \u00e0quele: uma infra-estrutura enorme, estacionamento, cachoeiras, os palcos, as pessoas vestidas como na \u00e9poca do Woodstock e cantando com a gente (Mozart canta um trecho de um cl\u00e1ssico do Terreno): \u201cNo terreno baldio voc\u00ea pode gritar\u201d! \u201cBicho de que planeta voc\u00eas vieram? (risos). Que loucura!\u201d (diz Mo- zart admirado por ainda se lembrarem.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, s\u00f3 uma curiosidade. No final do anos 70, o Wander (Taffo) saiu do Joelho de Porco que estava estourando na m\u00eddia e perguntou se eu queria entrar. Eu entrei e toquei pra caramba. Um dia desses vi um v\u00eddeo em que estava nos Os Trapalh\u00f5es, e eu estava no colo do Didi (risos). Depois o Wander saiu do Secos e Molhados (nessa \u00e9poca sem o Ney Matogrosso) para tocar com a Rita Lee e de novo me convidou para ingressar na banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toquei tamb\u00e9m com o Jo\u00e3o Guilherme que fazia parte do Secos e Molhados, que depois veio a fazer um trabalho solo em que participei. Ele era muito genero- so, eu era bem remunerado. Ele me deixava colocar 10 guitarras em uma faixa. Teve uma em que escrevi um arranjo de orquestra, mas a mesma n\u00e3o apareceu e eu gravei uma orquestra de guitarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei a acompanhar artistas tamb\u00e9m. Uma vez encontrei o Ralf do Cristian e Ralf e eu fui o primeiro guitarrista da banda dele e do Fabio Jr. Todos os guitarristas da minha gera\u00e7\u00e3o tocaram com Eduardo Ara\u00fajo. Devo muito ao Eduardo. Enfim, alguns famosos e outros n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m toquei bastante na noite e em banda de m\u00fasica instrumental. Imagina s\u00f3, quem tocava baixo era o Nico Assum\u00e7\u00e3o, tinha o Arismar do Es- p\u00edrito Santo, Duda Neves, o Albino, Z\u00e9 Portugu\u00eas, quarteto do Luiz Melo\u2026 Em bares especializados, toc\u00e1vamos quase todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 E era como hoje? Dava algum retorno financeiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grana rolava, n\u00e3o era muito, mas dava. Lembro que t\u00ednhamos uma banda e uma perua em que deix\u00e1vamos todo o equipamento. Se n\u00e3o havia uma <i>gig, <\/i>n\u00f3s ach\u00e1vamos uma. \u00cdamos perguntando se dava para tocar. Existia um circuito de bares legais como Penicilina, Sanja, Lei Seca, Jazz \u2018n Blues que deixavam a cena de m\u00fasica instrumental forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 83, entrei para o Grupo D\u2019alma e no ano seguinte est\u00e1vamos excursionando em Montreal. Imagina s\u00f3, em um momento voc\u00ea pensa que m\u00fasi- ca instrumental \u00e9 legal e no outro est\u00e1 viajando tocando em festival de <i>jazz,<\/i>tocando depois de Miles Davis com um viol\u00e3o na m\u00e3o e n\u00e3o acreditando no que estava acontecendo. O <i>D\u2019alma<\/i>me trouxe esta coisa boa de tocar em grandes festivais internacionais e em todos os teatros municipais do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 E a hist\u00f3ria de que o D\u2019alma iria lan\u00e7ar um CD com orquestra? Isso \u00e9 verdade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sim, inclusive gravamos duas m\u00fasicas minhas e que ir\u00edamos inserir o arranjo de orquestra depois, isto era um trabalho de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. Mas neste ponto eu j\u00e1 tinha pedido para sair, eu queria na verdade tocar guitarra. Teve um show que eu levei uma guitarra e os caras disseram que eu j\u00e1 estava pegando pesado, j\u00e1 que o trio era de viol\u00e3o. Mas o D\u2019alma foi a minha melhor <i>gig <\/i>em termos de produtividade e viagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 Voc\u00ea falou sobre arranjo de orquestra. Voc\u00ea chegou a se aprofundar nisso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, como vi que o buraco era mais em baixo, ent\u00e3o fui ter aula com Koellreutter, com quem estudei arranjo e orquestra\u00e7\u00e3o, j\u00e1 m\u00fasica indiana estudei com Z\u00e9 Eduardo Narzario e m\u00fasica dodecaf\u00f4nica, na USP, mas fui estudar tudo de besta mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 Houve uma banda instrumental sua em que o Faiska fazia parte, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, chamava-se Trielo que contava com Faiska e \u00c1lvaro Gon\u00e7alvez, que mais tarde veio a ser substitu\u00eddo pelo Tomati. Na verdade era um duelo de tr\u00eas, pass\u00e1vamos a noite inteira duelando um com o outro e o pessoal ia ao del\u00edrio. Hoje em dia n\u00e3o sei se o pessoal teria saco para assistir algo como isso, mas viaj\u00e1vamos direto. Com o Faiska fiquei 4 anos na estrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 E como eram estes shows?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, existia um lugar em S\u00e3o Carlos que se chamava Caf\u00e9 com Letras, que era assim: tinha aquela fila para entrar no bar, na hora da sess\u00e3o o servi\u00e7o de bar parava e era uma hora e meia de pura improvisa\u00e7\u00e3o. Quando acabava o pessoal pagava a conta e saia e n\u00f3s par\u00e1vamos para comer. Quando volt\u00e1vamos faz\u00edamos a segunda e se tivesse gente chegava at\u00e9 a terceira ses- s\u00e3o. Imagina s\u00f3 tr\u00eas sess\u00f5es e tr\u00eas malucos improvisando pra caramba, <i>drive <\/i>pra caramba, eu tenho a guitarra que eu usava at\u00e9 hoje. Era uma Spanish escalopada, que guardo como se fosse uma rel\u00edquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Voc\u00ea acha que ainda existe gente com esta proposta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, se n\u00f3s balan\u00e7armos uma \u00e1rvore vai cair uns 10 jazzistas, mais 50 guitarristas de rock (risos) mesmo tocando todo mundo igual, tem sim. Viajando por a\u00ed percebo que um dos caras mais imitados do Brasil \u00e9 o Edu. Se o Edu tocar com alavanca de uma maneira diferente, na semana seguinte todo mundo est\u00e1 tocando igual. Tem m\u00e9rito? Sim tem, mas n\u00e3o vai acontecer nada. O cara acaba de gravar um CD em casa e j\u00e1 quer um endorsement. Isso n\u00e3o existe! Hoje em dia est\u00e1 tudo muito precoce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Uma vez perguntaram em um workshop para John Scofield\u2028o seguinte: Voc\u00ea toca neste trecho um mixo com #4, d\u00f3rico e etc, e ele respondeu que n\u00e3o\u2028 tocou nada daquilo e que n\u00e3o \u2028sabia nada daquilo. Na verdade, sabia tudo aquilo, mas n\u00e3o utilizava nada daquela maneira, simplesmente jogava tudo em um liquidificador e tocava. Hoje em dia o que ajuda os estudantes no in\u00edcio \u00e9 o que vai atrapalhar depois (por exemplo, s\u00f3 pensar em desenhos), e isso \u00e9 uma falha grav\u00edssima no ensino da guitarra, coisa que j\u00e1 n\u00e3o acontece com quem toca instrumento de sopro, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Minha pergunta \u00e9 a seguinte: voc\u00ea ainda pensa nas escalas na hora de tocar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja bem, aqueles estudos que \u2028citei t\u00eam muito a ver com isso. Posso propor tais estudos para os alunos como\u2028uma mat\u00e9ria desintoxicante, mas sou educador, tenho que falar do convencional. O aluno precisa ter refer\u00eancias, e digo para ele que minha aula n\u00e3o \u00e9 bem de m\u00fasica, \u00e9 de matem\u00e1tica musical. Vou lhe dar v\u00e1rios par\u00e2metros que funcionam. Mod\u00e9stia a parte, se tem uma coisa que eu posso ajudar as pessoas \u00e9 na parte de harmonia que evoluiu muito. Consegui elaborar alguns conceitos que acho que posso transformar o cara em um grande harmonizador. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil ensinar na parte da improvisa\u00e7\u00e3o porque \u00e9 subjetiva, por exemplo, como voc\u00ea vai dar aula de um Bend ou uma alavancada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, quando \u00e9 ci\u00eancia exata como acordes \u00e9 mais f\u00e1cil para se obter resultados. Hoje em dia eu dou uma mat\u00e9ria que se chama \u201coutros empilhamentos\u201d, em que cito, por exemplo, que empilhamento fusion Allan Holdsworth se faz com uma configura\u00e7\u00e3o, empilhamento #1, outra configura\u00e7\u00e3o, empilhamento #3 Jimi Hendrix. Na verdade, os caras est\u00e3o tocando o campo harm\u00f4nico s\u00f3 que de maneiras diferentes. Ent\u00e3o, a matem\u00e1tica funciona logo de cara, mas na improvisa\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona. Eu digo para meus meninos: \u201cvoc\u00eas est\u00e3o acertando mas o buraco \u00e9 mais embaixo. Voc\u00eas t\u00eam que pesquisar uma forma de tocar e otimiz\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vai ser eu n\u00e3o estou nem a\u00ed. Se o cara vai tocar em uma corda ou duas, se o cara vai tocar tudo alternado, n\u00e3o me importo. O importante \u00e9 o resultado. Com todo respeito a algumas escolas e faculdades que voc\u00ea tem que palhetar tudo do mesmo jeito, o mesmo arpejo, a escala com o mesmo padr\u00e3o\u2026 Meu amigo, d\u00ea uma bica em tudo isso e vai procurar sua identidade musical! Estamos em 2010 (diz inconformado)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 De onde veio toda a parte did\u00e1tica j\u00e1 que n\u00e3o existia material na \u00e9poca? Voc\u00ea\u00a0acabou inventando um material?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, at\u00e9 hoje encontro alguns manuscritos perdidos que confesso que alguns assuntos eu tive que inventar, porque n\u00e3o tinha como saber, como harmonizar uma escala, por exemplo, eu acho que \u00e9 assim e assado\u2026 A\u00ed chegava para um amigo e dizia: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o imagina o que eu descobri! A escala maior de C7+, Dm7, Em7 etc., \u00e9 a mesma escala, voc\u00ea sabia disso?\u201d; e o cara me respondia: \u201cP\u00f4, isto \u00e9 campo harm\u00f4nico coisa e tal\u201d. Ent\u00e3o fui comprar um livro que mostrava os modos eclesi\u00e1sticos de m\u00fasica erudita e pensava: \u201cmas que m\u2026 \u00e9 essa de hipod\u00f3rico para o frigio, n\u00e3o estou entendendo nada\u201d. A\u00ed tive que ir ca\u00e7ando informa\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar \u00e0 resposta: \u201cAh, ent\u00e3o esta coisa que \u00e9 d\u00f3rico, p\u00f4\u201d. Ent\u00e3o, depois tinha que chegar para o aluno e explicar que n\u00e3o era nada daquilo (risos).\u2028Bom, mais ou menos em 83 eu morava na Teodoro Sampaio (famosa rua de instrumentos musicais de S\u00e3o Paulo) e tinha uma lista de espera de quase 400 alunos! N\u00e3o existia professor de guitarra. \u00c9ramos Aldo Landi e eu dando aulas de segunda a segunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 Aproveitando este gancho, voc\u00ea utiliza alguns termos como melod\u00f3rico, harmoe\u00f3lio. S\u00e3o cria\u00e7\u00f5es suas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma explica\u00e7\u00e3o para isto. Quando estava analisando algumas transcri\u00e7\u00f5es do Malmsteen (isso anos depois), vi este termo harmo\/e\u00f3lio. O cara colocou as duas s\u00e9timas na mesma escala, com o prop\u00f3sito de facilitar a digita\u00e7\u00e3o de coisas eruditas. Ent\u00e3o na hora que vi aquilo pensei em somar os dois campos harm\u00f4nicos, que deram 14 acordes e comecei a achar tudo o que queria. Por que pensar somente em 7 notas? N\u00e3o tem por qu\u00ea, se voc\u00ea pensar em 8 notas est\u00e1 tudo l\u00e1. Todas as ca- d\u00eancias maiores e menores est\u00e3o l\u00e1, inclusive os modos. O cara vai para o lado jazz\u00edstico ou para o lado mel\u00f3dico, roqueiro. Hoje em dia consegui assimilar de tal maneira que consigo aplicar isto em qualquer estilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 O que voc\u00ea acha do ensino nas faculdades de m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom, vou exemplificar, tenho uma aluna que estuda em uma faculdade de m\u00fasica e ir\u00edamos come\u00e7ar a estudar m\u00fasica brasileira. Perguntei o que ela estava estudando nesta disciplina e ela me respondeu que nunca tinha estudado m\u00fasica brasileira na faculdade e que come\u00e7aria a estudar Coltrane. Pensei: \u201cpelo amor de Deus, toca uma levada de bai\u00e3o a\u00ed, tem que tocar Jobim, toca polirritmia, depois toca sertanejo, tem que tocar sertanejo sim que os licks t\u00eam tudo a ver com country, toca tudo\u201d. Ent\u00e3o, na minha cabe\u00e7a vai ser sempre assim: se eu pudesse enfiar a minha metodologia, voc\u00ea vai ter que tocar de tudo, se o cara gosta de rock ele vai tocar jazz, se o cara toca jazz vai ter que tocar rock e dar <i>Bend, <\/i>que papo \u00e9 esse? N\u00f3s somos gui- tarristas meu. Estamos criando um cara que s\u00f3 sabe tocar jazz. Aqui no Brasil, o cidad\u00e3o vai sair da faculdade formado, aparece uma gig com um artista renomado de sertanejo e pronto, o cara j\u00e1 est\u00e1 desempregado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, \u00e9 muito importante depois estudar com especialista para aprender a linguagem de cada estilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer saber? Tem que ter uma hora que temos que nos interiorizar para analisarmos nossas atitudes. Poxa, eu n\u00e3o sou um rebanho, eu tenho minhas ideias pr\u00f3prias. Deixe-me rever meus conceitos e projetos. Por exemplo, em um momento musical que estou vivendo agora, vou ter que romper meus limites: me propus a tocar um neg\u00f3cio que n\u00e3o consigo, mas que quero tocar e vou tocar, mas meu problema n\u00e3o \u00e9 m\u00e3o, \u00e9 cabe\u00e7a. Eu me impus certos limites que terei que quebrar. N\u00f3s impomos v\u00e1rios limites para a gente, at\u00e9 limites de criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 Que m\u00fasicas s\u00e3o estas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevi 8 m\u00fasicas que s\u00e3o estudos que tenho h\u00e1 algum tempo, mas s\u00f3 em uma fiz um arranjo. Peguei Desafinado e estou tocando em 3\u20444 com diversos elementos: tem um que estou de m\u00fasica espanhola, um de rock que eu fiz em 13\/16 que n\u00e3o fiz de sacanagem (gargalhadas), alguma coisa de sonoridade cl\u00e1ssica e, sem d\u00favida nenhuma, Steve Morse com a sonorida- de dele meio barroca que tem um som meio barroco. Ali\u00e1s fiz uma m\u00fasica que \u00e9 em homenagem a ele que se chama Morseando, que inclusive j\u00e1 mostrei para ele e me perguntou: \u201cQue ritmo \u00e9 este?\u201d E expliquei que era uma ritmo comum no Brasil (bai\u00e3o) e o cara pediu para ouvir de novo. Fiquei muito feliz ainda mais porque a m\u00fasica tem 7 minutos (risos)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Como voc\u00ea traz esta parte da guitarra com emo\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica mais bonita do mundo, na minha opini\u00e3o, \u00e9 Jesus Alegria dos Homens ainda mais se for tocada pelo Nelson Freire. Mas como funciona esta coisa dentro do nosso mundo? Por exemplo, Bill Frisel que n\u00e3o toca muitas coisas e muitas vezes \u00e9 s\u00f3 um sol maior que \u00e9 diferente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso ele quase n\u00e3o \u00e9 conhecido, porque o par\u00e2metro de hoje em dia \u00e9 tocar r\u00e1pido. Ele \u00e9 muito bom e respeitado l\u00e1, mas voc\u00ea consegue imaginar um cara que \u00e9 famoso porque toca lento? Por isso coloquei um v\u00eddeo do Jeff Beck tocando no myspace. Ali n\u00e3o tem truque n\u00e3o, \u00e9 na pegada mesmo. Mas voltando \u00e0 resposta, existe um novo pacote com padr\u00f5es de maneiras de se sentir as coisas. Eu posso tocar isso (neste momento Mozart empunha sua guitarra e d\u00e1 um Bend fazendo careta) e vai ter gente dizendo o seguinte: \u201co Mozart est\u00e1 arrebentando hoje, est\u00e1 com uma p\u2026 pegada\u201d. Por\u00e9m, na verdade n\u00e3o estou sentindo nada. Portanto, s\u00e3o estere\u00f3tipos sentimentais. Hoje eu questiono tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 Mas qual \u00e9 seu principal estilo como guitarrista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roqueiro fracassado (gargalhadas). Bem, mas n\u00e3o \u00e9 verdade, o que eu queria mesmo era tocar rock, mas n\u00e3o rolou. Esse neg\u00f3cio de II V I n\u00e3o era nada do que eu tinha planejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LC \u2013 Voc\u00ea chegou a terminar engenharia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parei no \u00faltimo ano. Cheguei a trabalhar como engenheiro estagi\u00e1rio durante dois anos em uma estatal com despolui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, mas de repente me vi em uma situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel: estava desempregado e s\u00f3 consegui encontrar trabalho com aula de guitarra e viol\u00e3o. Eu lembro uma situa\u00e7\u00e3o que me marcou: tinha uma parte da engenharia que eu manjava que era hidr\u00e1ulica, s\u00f3 que eu n\u00e3o tinha t\u00edtulo. Mesmo assim, fui procurar emprego em Santo Amaro e mais uma vez n\u00e3o consegui por falta de diploma. Por\u00e9m, em frente \u00e0 empresa havia um conservat\u00f3rio e pensei \u201cpoderia dar umas aulas, n\u00e3o \u00e9?! N\u00e3o manjo muito, mas toco alguma coisa\u201d. Ent\u00e3o, eu me apresentei: \u201csou guitarrista e gostaria de dar umas aulas\u201d, e na mesma hora me disseram: \u201cpode vir na sexta-feira que voc\u00ea vai dar aula o dia inteiro\u201d. A\u00ed tive a ideia de ligar em um conservat\u00f3rio onde tinha tido umas aulas e perguntei: \u201cDona Eliete, a senhora se lembra de mim? Tive aulas de viol\u00e3o erudito e tal, tem como dar aula a\u00ed?\u201d Ent\u00e3o, em uma semana j\u00e1 dava aula em dois con- servat\u00f3rios. Isso foi emblem\u00e1tico para mim porque era para ser uma situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 para tirar um extra. Afinal, sempre pensei que acharia algo em engenharia, mas esta coisa louca rola at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 De modo geral, qual a sua maior cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que o m\u00fasico tem uma tend\u00eancia muito grande a emburrecer. Ele fica fechado na m\u00fasica, tocando as mesmas coisas durante uma d\u00e9cada e voc\u00ea fica patinando. J\u00e1 as outras ci\u00eancias t\u00eam andado mais r\u00e1pido. A literatura tamb\u00e9m. Isto \u00e9 uma cr\u00edtica que fa\u00e7o a todos n\u00f3s. Eu toco Autumn Leaves h\u00e1 30 anos! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, cara (diz indignado), n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que seja sempre a mesma coisa, cad\u00eancias e tal! \u00c9 muito med\u00edocre este pensamento como ser humano. Quan- do come\u00e7o a ler sobre cosmologia, sobre as coisas que est\u00e3o sendo feitas em ci\u00eancia, eu me sinto um homem das cavernas. Caramba! Os caras est\u00e3o estudando para valer mesmo e eu continuo dando aula de II V I. Sabe? Eu gostaria de estudar m\u00fasica explorando novos pa- r\u00e2metros e n\u00e3o ser obrigado a passar o resto da vida ensinando ACDC e Smoking on the Water para sobreviver de m\u00fasica. N\u00e3o \u00e9 isto que planejamos. O planeta emburreceu e n\u00f3s emburrecemos o triplo. \u00c9 que n\u00f3s n\u00e3o percebemos. Basta ligar em qualquer ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o que voc\u00ea confere o que estou falando. Sobra um National Geographic e um futebolzinho e mais nada. O resto \u00e9 um lixo. Estou em uma fase atr\u00e1s de coisas mais consistentes. Prefiro ler, chamar um amigo para conversar sobre diversos assuntos. E dentro desses par\u00e2metros a m\u00fasica tamb\u00e9m se encaixa nesta mediocridade. Sinto-me med\u00edocre como m\u00fasico. Acho que temos que ter altos v\u00f4os, propor coisas diferentes, tocar coisas diferentes, pesquisar afina\u00e7\u00f5es diferentes, polirritmia, m\u00fasica \u00e9tnica, tudo isto e a gen- te n\u00e3o faz. Estamos sempre tocando as mesmas coisas, os mesmos acordes\u2026 Isto para mim n\u00e3o d\u00e1 mais. Eu quero fazer a diferen\u00e7a! Acho que algu\u00e9m tem que andar na contra m\u00e3o porque sen\u00e3o nada acontece. Daqui para frente vou tentar fazer coisas diferentes. Montei um myspace com esta proposta (myspace.com\/oficinamozartmello). Se a ideia \u00e9 andar na contra m\u00e3o, ent\u00e3o cai pra dentro! Coloquei um filme de um indiano e do Jeff Beck tocando sozinho. Pronto, n\u00e3o tem radicalismo. S\u00f3 que os caras t\u00eam algo a mais. N\u00e3o adianta voc\u00ea enviar v\u00eddeos tocando r\u00e1pido que n\u00e3o vai entrar nesse myspace. Se voc\u00ea tem alguma proposta nova cai pra dentro! Recebi muitos v\u00eddeos que n\u00e3o se encaixam no que quero. Ent\u00e3o, quando digo que \u00e9 s\u00f3 guitarra e metr\u00f4nomo e mais nada, acabou. A guitarra n\u00e3o existe mais sem aquele playback em Mi menor e voc\u00ea fritando ou ent\u00e3o em uma cad\u00eancia, voc\u00ea tocando aquelas velhas frases do Charlie Parker, dos livros norte-americanos, ou chord melody de jazz que quase sempre s\u00e3o as mesmas coisas. N\u00f3s moramos no Brasil!!! N\u00f3s temos uma m\u00fasica riqu\u00edssima! N\u00e3o h\u00e1 necessidade de s\u00f3 tocar jazz. Para estudar \u00e9 maravilhoso, mas proponha alguma coisa diferente, pelo amor de Deus! A proposta do que vem pela frente \u00e9 por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0AS \u2013 Como voc\u00ea definiria um bom m\u00fasico hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00edvel do m\u00fasico para mim se mede atrav\u00e9s do acorde que ele faz e n\u00e3o quando ele est\u00e1 solando. Se o cara quebrou tudo e faz acordes med\u00edocres n\u00e3o quer dizer muita coisa, inclusive jazzistas que tocam aque- le C7+ suado. Conclus\u00e3o, o cara \u00e9 talentoso, um bom memorizador de frases e <i>chorus <\/i>e \u00e9 s\u00f3. O cara que n\u00e3o estuda harmonia para mim \u00e9 med\u00edocre seja l\u00e1 em que estilo toca. Vai estudar harmonia, cara! Vai fazer os mesmos acordes a vida inteira? Eu chamo estes acor- des de churrascaria 1, churrascaria 2, churrascaria 3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AS \u2013 Quem voc\u00ea citaria como um m\u00fasico completo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida nenhuma John McLaughlin, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista musical, mas acho que ele est\u00e1 anos luz \u00e0 frente de todos n\u00f3s. Os outros guitarristas que me perdoem! Ningu\u00e9m escreveu e tocou com a Mahavishnu Orchestra, ningu\u00e9m tocou m\u00fasica indiana, ningu\u00e9m tocou m\u00fasica espanholada, ningu\u00e9m gravou com Hendrix, ningu\u00e9m tem mais de 10 discos gravados, gravou com Miles Davis. Ent\u00e3o a leitura que fa\u00e7o dele \u00e9 al\u00e9m de m\u00fasico\/compositor, o resto dos guitarristas t\u00eam que nascer de novo para realizar o que ele realizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AM \u2013 Para finalizar, fale-nos sobre o futuro. O que vai ser daqui para frente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui para frente? Isto que eu vou falar vai tocar no \u00edntimo de voc\u00eas (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s vamos sobreviver de m\u00fasica. Quando algu\u00e9m me diz que vai viver de m\u00fasica, a primeira coisa que digo \u00e9: \u201cvai ao banco e fa\u00e7a uma previd\u00eancia privada; pague 100 paus por m\u00eas e depois n\u00f3s conversamos\u201d. Quero dizer que as preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o suas em ter uma vida digna e produtiva. Acho que desta maneira d\u00e1 e eu tenho ainda muito pique para trabalhar, mas \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 o suficiente. Vejo muita gente talentosa merecedora de uma situa\u00e7\u00e3o financeira melhor e n\u00e3o est\u00e1 rolando. Eu fico muito preocupado. O cara tem que parar de fantasiar e se perguntar o que vai estar fazendo daqui a 5 ou 10 anos e que tipo de m\u00fasica vai estar produzindo. Ou outra pergunta cruel seria como estarei vivendo de m\u00fasica? Porque toda esta gera\u00e7\u00e3o nova que est\u00e1 a\u00ed tocando, feira de m\u00fasica e coisa e tal n\u00e3o fez este exerc\u00edcio n\u00e3o. Eles est\u00e3o achando que \u00e9 lindo, que o cara vai l\u00e1 e vai tocar o cover do Satriani, vai tocar r\u00e1pido. N\u00e3o \u00e9 isso a\u00ed, n\u00e3o cara (enfatiza). Vai chegar uma hora que n\u00e3o vai conseguir dar mais tantas aulas, a fam\u00edlia vai crescer, a cobran\u00e7a social, da fam\u00edlia, namorada, mulher, filhos etc. \u00e9 muito violenta. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que pensar realisticamente algumas coisas. Eu j\u00e1 exclui algumas delas. Concordo que j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais para colocar uma peruca preta e uma cal\u00e7a de couro e manter uma banda de rock (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, eu vejo o futuro com muita simpatia. Vejo esta parte de aula mais voltada para cursos e livros. \u00c9 nisso que estou focado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Li%C3%A7ao-Exclusiva-Mozart-mello.pdf\">Li\u00e7ao Exclusiva Mozart mello<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/guitarexperience.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/GUITAREXPERIENCE-entrevista-Mozart-Mello-arrastado.pdf\">Analise<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">www.mozartmello.com<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma conversa descontra\u00edda e informal, o mais respeitado professor de guitarra do Brasil, Mozart Mello, comemora seus\u00a035 anos de<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":263,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262"}],"collection":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=262"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":264,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/262\/revisions\/264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/263"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/guitarexperience.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}